A religiosidade da Espanha não deve ser um museu do passado, diz Leão XIV no Corpus Christi em Madri
O papa Leão XIV preside a Missa da Solenidade de Corpus Christi na Praça Cibeles. | Crédito: Vatican Media.
“Eis uma recomendação para a Espanha de hoje e de amanhã: não seja a religiosidade que anima este país há séculos um museu do passado para ser visitado, mas uma escola de fé da qual ainda hoje se pode beber”, disse o papa Leão XIV na homilia da missa de Corpus Christi celebrada na Praça Cibeles, em Madri, hoje (7), segundo dia de sua visita apostólica ao país que começou ontem (6) e vai até sexta-feira (12).
“Com o coração cheio de alegria, no início desta viagem a Espanha, presido a esta celebração no dia da Solenidade de Corpus Christi”, disse o papa ao começar a homilia.
O Corpus Christi tem suas raízes na Bélgica, quando a irmã Juliana de Cornillon promoveu a instituição de uma festa dedicada ao Santíssimo Sacramento. A iniciativa se espalhou rapidamente por toda a cristandade, criando raízes particularmente fortes na Espanha. O papa Urbano IV a confirmou em 1264 e, algumas décadas despois, chegou à península, onde o rei Alfonso X o Sábio participou na celebração em Toledo em1280.
Com o passar dos séculos, essa tradição consolidou-se ainda mais, transformando a Espanha num dos principais bastiões da defesa eucarística contra a teologia protestante. No contexto do Concílio de Trento, enquanto em outros países europeus se questionava a presença real de Cristo na Eucaristia, na Espanha ela continuou a ser exaltada graças a essa expressão arraigada de fé popular.
“As solenes procissões deste dia têm moldado, ao longo dos séculos, a piedade, a arte, a música, a arquitetura e a vida do povo espanhol e, ainda hoje, expressam e manifestam o sentimento espiritual deste país”, disse Leão XIV na Praça Cibeles, um dos símbolos mais emblemáticos de Madri, coroada pela figura da deusa romana em sua carruagem puxada por leões.
Um dos participantes comentou, em tom de brincadeira, que, com a presença do papa em Madri, a capital espanhola agora tem três leões.
A Praça Cibeles também é internacionalmente conhecida como o local onde o Real Madri celebra seus títulos, mas nesta ocasião, tudo girava em torno de Cristo.
“Não se trata apenas de levar a custódia, mas de nos deixarmos sair do egoísmo, da indiferença, de uma fé confortável e privada, para responder ao seu convite à conversão, a mudar o olhar, a acolher a sua presença que nos transforma e nos torna construtores de um mundo novo”, disse o papa na celebração eucarística que antecedeu a procissão.
O percurso, de apenas 600 metros ao longo da rua Alcalá — uma das principais vias da capital — foi suficiente para apresentar Cristo como uma presença próxima da humanidade.
O papa disse que não se trata de “uma manifestação exterior, de uma sobrevivência folclórica ou de um simples adorno estético”. “Trata-se aqui da fé na presença do Senhor Ressuscitado, que está vivo e continua a passar no meio de nós, que se faz pão para a nossa fome de vida e visita os recantos do nosso coração e da nossa história, também os mais escuros”, disse.
O papa também fez uma pausa para admirar “a beleza e da elegância dos tapetes florais, dos altares nas ruas, do cuidado com as custódias e os ostensórios, dos cânticos e dos ornamentos”. A rua Alcalá estava especialmente enfeitada, com um total de 16 tapetes florais — oito de cada lado — feitos com mais de 30 mil crisântemos.
Segundo o papa, “a memória histórica das procissões de Corpus Christi não se deixa aprisionar por uma lembrança nostálgica; torna-se, pelo contrário, um convite para o hoje, para a nossa vida pessoal, para as nossas relações, para a sociedade, para a construção do futuro”.
Numerosos fiéis acompanharam o papa na procissão. Entre eles, várias crianças que haviam recebido recentemente a primeira comunhão.
Para o papa, a fé é uma “escola que nos ensina a ajoelhar-nos perante Deus e perante o próximo, porque ninguém pode ajoelhar-se perante o Senhor e desprezar o irmão”.
Uma escola, acrescentou, “que nos ensina a gratidão do amor que se torna dom, para que circule entre nós e quebre as correntes de todo o egoísmo; uma escola na qual aprendemos que Deus é presença real e que também nós somos chamados a estar presentes nas situações e nos desafios da sociedade, a não fugir, a comprometer-nos pessoalmente na construção do bem comum”.
O papa citou são Manuel González García (1877-1940), conhecido como o “bispo dos sacrários abandonados”, e disse que a sua vida “recorda-nos que a Eucaristia não pode ser honrada apenas nas grandes celebrações ou de forma ocasional, mas também na fidelidade silenciosa de quem acompanha o Senhor com uma amizade humilde e discreta, alimentada dia após dia”.
“Abramo-nos ao encontro com Ele, deixemos que Ele hidrate as aridezes do nosso coração, para depois sairmos, nos caminhos da vida e da história, e levarmos entre as pessoas esta corrente de água fresca, de amor, de paz, de justiça e de alegria. Bebamos novamente desta fonte eucarística, que não nos fecha numa devoção privada, mas nos envia para regar os irmãos, as famílias, os pobres, aqueles que sofrem e aqueles que perderam a esperança. A graça eucarística transforma-nos, mas também nos converte em protagonistas da transformação da história e sinal de esperança para aqueles que encontramos”, concluiu.
Victoria Cardiel é jornalista especializada em temas de informação social e religiosa. Desde 2013, ela cobre o Vaticano para vários veículos, como a agência de noticias espanhola Europa Press, e o semanário Alfa y Omega, da arquidiocese de Madri (Espanha).
“Vocês podem mudar a história, façam isso com amor”, diz Leão XIV a jovens em Madri
“Vocês podem mudar a história, façam isso com amor”, disse o papa Leão XIV aos jovens na praça de Lima em Madri, Espanha, na Vigília de Oração com os jovens celebrada hoje (6). Segundo as autoridades, cerca de 600 mil pessoas participaram.
“O papa Leão XIV tomou conhecimento com pesar do grave ato de violência que causou a morte de Sua Excelência, dom Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane e Administrador Apostólico de Beira”, diz a sala de Imprensa da Santa Sé. Dom Afonso foi encontrado morto em sua residência episcopal depois de um ataque armado na madrugada de sábado (6), em Moçambique.
Quinze anos depois da última visita, a Espanha recebe um papa novamente hoje (6). As imagens de Bento XVI em Cuatro Vientos, sob uma chuva torrencial, durante a Jornada Mundial da Juventude de 2011, permanecem vivas na memória coletiva.
---
Fonte: ACI Digital
URL Original: https://www.acidigital.com/noticia/68399/a-religiosidade-da-espanha-nao-deve-ser-um-museu-do-passado-diz-leao-xiv-no-corpus-christi-em-madri
Comentários