Modo de celebrar a Missa que vigorou na Igreja Católica por 400 anos volta a ser debatido.
Nas sombras imponentes das montanhas de Écône, na Suíça, a manhã chuvosa de 1º de julho de 2026 carregava o peso de uma decisão histórica para a Igreja Católica. Ali, no coração da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o perfume do incenso misturava-se ao som de preces seculares ditas em latim. Para os olhos desatentos, parecia apenas mais uma solene missa tradicional; para Roma, contudo, desenhava-se ali o contorno de uma nova e dolorosa fratura eclesial.
Ao erguerem as mãos para sagrar quatro novos bispos — Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier —, os prelados lefebvrianos cruzavam uma fronteira teológica da qual sabiam não haver retorno simples. A resposta do Vaticano veio sem hesitação. No dia seguinte, um decreto do Dicastério para a Doutrina da Fé, assinado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández definia o ato como de natureza cismática. A consequência foi a excomunhão ipso facto e latae sententiae, ou seja foram excomungados automaticamente em consequência dos próprios atos, de todos os envolvidos, incluindo o bispo co-consagrante Bernard Fellay. Trinta e oito anos depois que Dom Marcel Lefebvre assombrou o catolicismo com a mesma insubordinação, a história se repetia. Para compreender essa ruptura na túnica de Cristo, é preciso decifrar o mistério de uma liturgia antiga e compreender a solidez da fé.
No epicentro desse terremoto eclesial está a chamada Missa Tridentina, a forma litúrgica medieval que moldou o Ocidente por quase quatrocentos anos. Seu nome evoca o Concílio de Trento, realizado no século XVI como resposta à Reforma Protestante. Foi o Papa São Pio V quem, em 1570, unificou os ritos regionais europeus em um único Missal Romano. Esse livro recebeu acréscimos de papas como Clemente VIII e Urbano VIII até que São João XXIII, em 1962, fixou a última edição oficial daquela que ficou conhecida como a Missa tradicional. Ela permaneceu como a forma ordinária do rito romano até 1969, ano em que o Papa Paulo VI, aplicando o Concílio Vaticano II, anunciou o Novus Ordo Missae, a missa celebrada hoje na maioria das paróquias.
Assistir à celebração de 1962 é adentrar uma atmosfera de profundo misticismo. O sacerdote celebra ad orientem — voltado para o altar, liderando o povo em direção ao altar e à cruz. O silêncio é reverenciado e o latim preenche o espaço sagrado. Nela, há uma única oração eucarística e o Confiteor é mais longo, recitado duas vezes: pelo sacerdote e pelos fiéis. Não existe concelebração e as mulheres não servem ao altar. A comunhão é distribuída na língua, com o fiel de joelhos, terminando a celebração com a leitura do prólogo de São João. Para os tradicionalistas, esse rigor salvaguarda a fé contra a secularização.
A introdução das línguas locais e a atualização dos ritos pelo Vaticano II geraram focos de resistência. O mais contundente deles foi articulado pelo arcebispo Marcel Lefebvre, que fundou a Fraternidade São Pio X, passando a operar à margem de Roma até que, in 1988, a ordenação clandestina de bispos gerou o primeiro cisma. Os sucessores de Pedro tentaram construir caminhos de retorno. O passo mais largo foi dado por Bento XVI em 2007. Por meio do motu proprio Summorum Pontificum, o pontífice alemão determinou que o Missal tridentino nunca fora revogado juridicamente, estabelecendo que coexistiam ali dois usos do mesmo rito romano: o de Paulo VI como forma ordinária e o de João XXIII como forma extraordinária. O documento liberou qualquer sacerdote a celebrar a missa antiga com autorização especial de seu bispo local, visando pacificar os corações.
A paz, contudo, revelou-se efêmera. Em 2021, o Papa Francisco publicou a Traditionis Custodes, que continuou o que Bento XVI tinha permitido, mas alertou que a missa antiga estava sendo utilizada para promover divisões. Essa polarização culminou nos trágicos eventos de meados de 2026. Num gesto de extrema solicitude pastoral, o Papa Leão XIV enviou uma carta ao Superior Geral da Fraternidade, o bispo Alfonso de Galarreta, no dia 29 de junho, implorando para que não se dilacerasse a túnica de Cristo. O apelo foi ignorado.
A cerimônia em Écône consumou a fratura jurídica. O decreto assinado pelo cardeal Fernández declarou que tanto os consagrantes quanto os quatro ordenados incorreram na excomunhão automática (latae sententiae). O Vaticano alertou que os ministros da Fraternidade administram os sacramentos de forma ilícita, sendo as confissões e casamentos inválidos, estendendo a pena aos leigos que aderirem formalmente ao movimento. A Igreja mantém as portas abertas ao retorno, mas, por ora, o silêncio doloroso do cisma voltou a ecoar nos altares da tradição.
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Fonte: Aleteia
URL Original: https://pt.aleteia.org/2026/08/05/porque-e-que-uma-missa-em-latim-voltou-a-abrir-uma-ferida-na-igreja/
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