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China pressiona e grupo católico dos EUA desiste de palestrante principal

Fenggang Yang, professor de sociologia na Universidade Purdue e diretor do seu Centro de Religião e Sociedade Chinesa, é o autor de "Religião na China: Sobrevivência e Renascimento sob o Regime...

Fenggang Yang, professor de sociologia na Universidade Purdue e diretor do seu Centro de Religião e Sociedade Chinesa, é o autor de "Religião na China: Sobrevivência e Renascimento sob o Regime Comunista". (foto: Dave Munch/The Chautauquan Daily / Dave Munch/The Chautauquan Daily) Uma organização católica sediada nos EUA cedeu à pressão de autoridades do governo chinês e retirou convite feito a um professor para falar em sua conferência, segundo e-mails obtidos pelo jornal National Catholic Register, da EWTN. Fenggang Yang, professor de sociologia da Universidade Purdue e diretor do Centro de Religião e Oriente Global, foi informado pela Associação Católica EUA-China (USCCA, nas sigla em inglês) em junho que não faria mais o discurso de abertura na conferência bienal da organização na Universidade St. Thomas em Houston, EUA. Em correspondência enviada a Yang, protestante que apoiou grupos religiosos não autorizados pelo governo da China, vários membros do conselho de administração e da liderança da USCCA disseram que funcionários do governo da China pediram que ele fosse tirado da lista de palestrantes e que os organizadores temiam represálias caso não o desconvidassem. “Temos medo de sermos incluídos em listas negras e de sermos proibidos de visitar a China novamente. Além disso, temos dois membros do Conselho na China. Eles podem ter problemas”, escreveu Peter Tan, presidente do Conselho da USCCA, num dos e-mails que Yang divulgou ao Register. A USCCA foi fundada em 1989 pela Conferência dos Bispos Católicos dos EUA (USCCB, na sigla em inglês), pelos jesuítas e por missionários da sociedade católica Maryknoll para "promover o apoio mútuo e os laços fraternos entre a Igreja na China e a Igreja nos EUA", segundo seu site. O conselho administrativo inclui Tan, dois padres católicos e Anne Tsui, professora ligada a escolas de negócios americanas e chinesas. O cardeal Blaise Cupich, arcebispo de Chicago, consta como o "ordinário local" na página da USCCA que lista os nomes dos membros do conselho administrativo da organização sediada em Chicago. Além de sediar a conferência bienal, a USCCA patrocina um ministério para estudantes chineses nos EUA e faz viagens de estudo para a China, diz seu site. Segundo sua declaração de imposto de renda do ano passado junto ao IRS (Receita Federal dos EUA), a USCCA recebeu US$ 108.432 (cerca de R$ 562,6 mil) em contribuições e pagou só um funcionário, que recebeu US$ 18,3 mil (cerca de R$ 94,9 mil). Em setembro do ano passado, Yang aceitou um convite para participar da na conferência da USCCA, que seria realizada de 31 de julho a 2 de agosto na Universidade St. Thomas, em Houston. O discurso que ele havia preparado, e que, segundo ele próprio disse ao Register, era “muito apolítico”, tinha como título Transformando o Guanxi: Laços Transnacionais Cristãos Chineses e a Construção de Capital Social e Espiritual. Em 16 de maio, Yang recebeu um e-mail de Tan, a quem ele nunca havia encontrado nem trocado correspondências. “Sou Peter Tan, presidente da USCCA. Acabei de voltar da China. Enquanto estava em Xangai, fui abordado por dois funcionários do governo a respeito da sua participação em nossa conferência. Gostaria de conversar com você sobre isso. Podemos conversar na segunda-feira? Obrigado. Peter”, dizia o e-mail. Segundo sua biografia no site da USCCA, Tan cresceu em Singapura, formou-se na Universidade do Havaí e converteu-se ao catolicismo. Numa reunião subsequente via Zoom, Yang disse que Tan lhe pediu que considerasse retirar-se do programa da conferência. Tan não soube identificar os nomes dos "funcionários do governo" nem explicar o motivo do pedido. Três dias depois, Yang enviou um e-mail para Tan dizendo que decidiu não desistir da conferência. "Depois de refletir sobre o assunto, acho que devemos prosseguir com o plano original — farei a palestra principal conforme programado, sobre o tema constante na programação", escreveu ele. Tan respondeu por e-mail dizendo que a decisão de cancelar sua palestra principal já havia sido tomada e que o conselho havia decidido "removê-lo como palestrante principal para proteger o futuro da USCCA". Tan escreveu que, se Yang permanecesse como palestrante, a arquidiocese de Galveston-Houston e a Universidade St. Thomas "muito provavelmente nos pediriam para cancelar a conferência", porque "eu tive que assegurar-lhes que não entraríamos em conflito com a posição da Santa Sé sobre a República Popular da China nem colocaríamos a Santa Sé em risco". A Universidade St. Thomas respondeu à consulta do Register, dizendo: “A UST não participou das decisões relativas aos palestrantes da conferência, não orientou as decisões de programação da USCCA e não solicitou a remoção de nenhum palestrante”. A arquidiocese de Galveston-Houston não respondeu a pedidos de comentários a tempo da publicação. O mesmo ocorreu com a arquidiocese de Chicago, onde a USCCA está sediada. Em 20 de maio, Tan enviou um e-mail a Yang falando sobre os motivos pelos quais a liderança da USCCA estava ansiosa para atender aos desejos das autoridades chinesas. Tan disse que, diferentemente de 2024, quando vários membros do CCPA participaram da conferência em Chicago, “nenhum membro do clero chinês foi autorizado a participar da conferência deste ano”. Ele falou sobre seus receios de que a presença de Yang possa ter contribuído para o aparente boicote chinês à conferência. “Uma conferência sobre a Igreja Católica na China sem a participação de nenhum membro do clero chinês perde credibilidade”, escreveu Tan a Yang. Em seguida, ele disse que os membros do conselho temiam as possíveis represálias do governo chinês caso permitissem que Yang discursasse na conferência, como, por exemplo, impedir que membros viajassem para a China ou punir aqueles que já residiam no país. Segundo o site da USCCA, a secretária do conselho, Anne Tsui, é a membro do conselho que tem os laços mais diretos com a China. Ela é professora visitante na Universidade de Pequim e na Universidade de Fudan, China, além de professora emérita na Universidade Estadual do Arizona, EUA. “A verdade é que ninguém consegue prever o que o governo pode e vai fazer. O risco é muito grande”, disse Tan. “Por favor, ajudem-nos a sair desta crise. Nossa próxima conferência será em 2028. Esperamos que a situação melhore. Podemos convidá-lo como palestrante principal, com a autorização do governo. Temos dois anos para 'negociar' com eles”. Num e-mail respondendo ao pedido de comentário do Register, Tan buscou contextualizar a controvérsia. “Uma coisa que ninguém parece entender, ou quer entender, é que a USCCA não é uma organização política ou de direitos humanos. Nossa missão é promover a amizade e o diálogo com a Igreja Católica na China”, escreveu ele. “Seguimos rigorosamente a agenda da Santa Sé. Três papas disseram que existe só uma Igreja Católica na China. A USCCA não tem qualquer contato com a Igreja Católica clandestina, muito menos com a Igreja protestante clandestina, que o doutor Yang defende e apoia veementemente”, continuou Tan, dizendo: “Respeito-o pela sua causa”. Em 29 de junho, em resposta ao pedido de Yang por uma carta formal anunciando a decisão do conselho de removê-lo como palestrante, ele recebeu uma carta assinada pelo padre passionista Rob Carbonneau, presidente da conferência USCCA de 2026, e por Tan. A carta oferecia “nossas mais sinceras desculpas”, dizendo que “a decisão angustiante” foi “forçada por circunstâncias externas imprevistas” que não refletiam o desempenho acadêmico de Yang. Classificada como “confidencial”, a carta esclarece melhor o que aconteceu na reunião de Tan com autoridades chinesas: O padre Carbonneau disse que os dois funcionários que pediram para se encontrar com Tan eram da SARA, a Administração Estatal para Assuntos Religiosos. Depois de uma breve conversa, um dos funcionários mencionou a próxima conferência da USCCA. "Citando suas críticas públicas anteriores ao governo chinês, ele solicitou que a USCCA o removesse do papel de palestrante principal", escreveu ele. A carta relatava então que o conselho e o comitê executivo da USCCA fizeram uma reunião de emergência para discutir o “dilema complexo que não oferecia uma solução perfeita”. “Depois de uma discussão minuciosa e exaustiva, os membros do Conselho presentes concluíram que solicitar sua retirada era a medida necessária para preservar a frágil presença e missão de longo prazo da USCCA na China”, disse a carta. Em entrevista ao Register relacionada a um artigo sobre as recentes leis e regulamentos da China que restringem a religião, o padre Carbonneau, historiador e membro do corpo docente adjunto do Instituto Ricci de História Cultural Sino-Ocidental do Boston College, contestou a ideia de que os católicos chineses não podem praticar sua fé livremente. “Na China, existem regras e regulamentos para todos os aspectos da sociedade”, disse ele. “Portanto, essa ideia de viver em uma sociedade organizada é a norma na China. Não estou dizendo que seja a melhor coisa do mundo, mas os chineses sabem que essa é a vida deles”. “Essas regulamentações só nos lembram que ser um católico chinês significa ser um bom católico chinês, ser um bom cidadão e crescer na fé”, disse ele. Respondendo se acreditava que as novas regulamentações faziam parte de uma “repressão” à religião na China, ele disse: “Aqui eu me retiro e diria, quase, 'sem comentários'. Porque isso entra no campo da ciência política”. O padre Carbonneau não respondeu a um pedido de esclarecimento posterior sobre a exclusão de Yang como palestrante principal. Yang, num comunicado divulgado à imprensa, disse que não concordaria com o pedido da USCCA para manter as conversas sobre o assunto em sigilo. “Não posso prometer silêncio sobre tudo isso. A flagrante violação da liberdade religiosa e da liberdade acadêmica, e a conivência da sua organização nesse processo, precisam ser expostas”, escreveu ele. “A disposição de uma organização católica sediada nos EUA em se tornar parte da repressão transnacional comunista chinesa é decepcionante e dolorosa”, disse. Nascido na China, Yang é protestante e obteve seu doutorado pela Universidade Católica da América em 1997. Ele disse ao Register que é um acadêmico, não um ativista político, e que já foi “muito bem recebido na China”. De 2000 a 2015, ele viajou frequentemente para a China para dar palestras, organizar conferências e conduzir workshops de verão para capacitar jovens acadêmicos no estudo da religião. Yang disse ao Register que já fez o discurso de abertura em conferências anteriores da USCCA e que ministrou uma palestra no Vaticano em 2023, organizada pelo Dicastério para a Cultura e a Educação. Uma das maiores autoridades em sociologia da religião, Yang é conhecido por seu “modelo de triplo mercado” da religião, que postula a coexistência de um “mercado vermelho” de religiões reconhecidas pelo Estado na China com mercados “negros” e “cinzas” de religiões, grupos espirituais e atividades ilegais ou não autorizadas. Usando esse modelo, Yang concluiu que “quanto mais restritiva e repressiva for a regulamentação, maior necessariamente se torna o mercado cinza da religião”. “Minha teoria sobre religião na China foi inicialmente muito bem recebida pelas autoridades chinesas”, disse ele. “Muitas pessoas disseram: 'Ah, isso realmente nos ajuda a entender a situação'. Elas falaram positivamente sobre isso”. Agora, disse Yang, sob a liderança de Xi Jinping, as coisas mudaram drasticamente. “A primeira década do século XXI foi a década mais aberta e liberal da história moderna da China”, disse ele. “Mas desde 2012, quando Xi Jinping se tornou o líder máximo, as coisas começaram a se fechar”. Com a crescente restrição à prática religiosa, o trabalho acadêmico de Yang também foi completamente censurado na China. Seus artigos foram removidos de bases de dados de periódicos online, e agora é proibido citar seus trabalhos acadêmicos em qualquer publicação. Em seguida, ele disse ao Register que também houve algumas "questões-chave que, acredito, podem ter desencadeado alguma tensão com autoridades na China", como um simpósio realizado por sua organização em Purdue em 2014, que teve depoimentos de advogados de direitos humanos, ministros cristãos e acadêmicos. Depois da conferência, sua organização divulgou o Consenso sobre Liberdade Religiosa, assinado pelos participantes, "para que a compreensão da liberdade religiosa possa ser disseminada e maior atenção possa ser dada às questões da liberdade religiosa na China". Seus livros e artigos sobre religião na China também não o tornaram querido pelos oficiais comunistas chineses, disse ele. Embora a USCCA não tenha respondido aos pedidos de informação sobre quantos membros do conselho concordaram com a decisão de cancelar o discurso de Yang, a decisão levou à renúncia de um membro do conselho, Richard Madsen, professor emérito de Sociologia da Universidade da Califórnia, em San Diego, EUA. Num e-mail enviado a Yang e aos demais membros do conselho da USCCA, Madsen renunciou ao cargo de diretor emérito da organização. “Concordo com Fenggang que a questão principal aqui não é a decepção e o inconveniente pessoal para ele, mas sim uma violação da liberdade de expressão, que é essencial para a integridade acadêmica”, escreveu ele. Acusando a USCCA de "receber ordens" do Departamento de Trabalho da Frente Unida do Partido Comunista Chinês, Madsen disse que a organização havia cruzado uma "linha vermelha para nossa profissão". “Cabe a vocês julgar se isso é para o bem da Igreja, mas é completamente inaceitável para o meio acadêmico. Buscamos um diálogo amigável com nossos colegas na China, mas precisamos evitar fazer parte de qualquer 'operação de influência' ”. Madsen não respondeu a um pedido de comentário do Register antes da publicação. Embora Yang tenha tido boas relações com a USCCA por anos, era importante para ele tornar público o que aconteceu, disse ele ao Register. “Acho que isso representa uma escalada”, disse ele. “Eles estão tentando me censurar em solo americano”. Yang disse que uma coisa é ser cancelado na China, mas outra bem diferente é ser censurado nos EUA. “Como uma organização religiosa americana poderia receber ordens das autoridades chinesas? Isso me deixou muito chateado. E eu não conseguia deixar isso para lá”, disse ele. A notícia da exclusão de Yang da programação da conferência da USCCA foi divulgada inicialmente pelo LifeSiteNews, que não divulgou o conteúdo dos e-mails. O deputado americano Christopher Smith, da Marinha Real de Nova Jersey, que apresentou um projeto de lei visando agentes estrangeiros repressivos em solo americano, tomou conhecimento do incidente. “Um acadêmico americano não deve ser expulso de uma conferência em uma instituição americana porque autoridades do governo chinês discordam de suas opiniões”, disse Smith num comunicado à imprensa. “E uma organização religiosa sediada nos EUA jamais deve ser pressionada — ou concordar voluntariamente — em censurar um acadêmico para atender às exigências de um governo autoritário estrangeiro. Os americanos jamais devem abrir mão de suas liberdades constitucionais aos ditames do Partido Comunista Chinês”, disse ele. Zelda Caldwell é editora de notícias da Catholic News Agency com sede em Washington, D.C. e trabalhou anteriormente como editora de Notícias e Cultura na Aleteia. O padre Pablo (Paulo) Liu Honggang recebeu hoje (31) a ordenação episcopal de bispo de Datong, na província de Shanxi, na China. --- Fonte: ACI Digital URL Original: https://www.acidigital.com/noticia/69587/china-pressiona-e-grupo-catolico-dos-eua-desiste-de-palestrante-principal

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