O Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) tornou pública, em 4 de maio de 2026, uma carta na qual critica a criação de uma “liturgia ou para-liturgia” por parte dos bispos alemães, em torno as cerimônias de bençãos para casais do mesmo sexo.
A Conferência Episcopal Alemã respondeu em 5 de maio, afirmando que esse documento, datado de 2024, não corresponde às bênçãos atualmente praticadas no país.
Em 10 de março de 2023, em Frankfurt, a assembleia do “caminho sinodal” alemão — consulta iniciada pela Igreja local em 2019 — aprovou com 93% um documento propondo a bênção para “casais que se amam” (isto é, pessoas divorciadas recasadas ou homossexuais). A iniciativa foi inspirada nas orações para casais homossexuais adotadas pelos bispos flamengos da Bélgica em setembro de 2022.
Nove meses depois, em 18 de dezembro de 2023, Roma pareceu seguir o mesmo caminho com a publicação da declaração Fiducia supplicans, que autorizou pela primeira vez bênçãos para casais homossexuais e divorciados recasados. O DDF, no entanto, insistiu que essas bênçãos não deveriam ser ritualizadas nem imitar o casamento cristão, que permanece, para a Igreja Católica, indissolúvel e entre um homem e uma mulher.
A declaração, aprovada pelo papa Francisco, provocou fortes reações em todo o mundo, especialmente na África. O DDF defendeu o texto, afirmando que as bênçãos deveriam ser espontâneas e durar apenas alguns segundos. Após trocas com o cardeal Fridolin Ambongo, presidente do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (Sceam), o “Santo Ofício” anunciou, em 11 de janeiro de 2024, que essas bênçãos não seriam aplicadas na África.
Nos bastidores, o Dicastério para a Doutrina da Fé foi chamado a tratar de outro tema delicado, desta vez vindo da Alemanha. Após Fiducia supplicans, um grupo de trabalho do “caminho sinodal” enviou a Roma um Vademecum apresentando seu projeto de bênçãos para “casais que se amam”. A resposta da Doutrina da Fé chegou em 18 de novembro de 2024, em carta dirigida ao bispo de Tréveris, Dom Stephan Ackermann, mas só foi tornada pública em 4 de maio de 2026, como confirmou o cardeal-prefeito Víctor Manuel Fernández ao site Aciprensa.
Na carta, o cardeal argentino afirma que o projeto alemão contradiz Fiducia supplicans. Segundo ele, o Vademecum “legitima” essas uniões ao criar “uma forma de liturgia ou para-liturgia”, estabelecer uma “regulamentação oficial” e permitir uma “aclamação” do casal, algo próprio do sacramento do matrimônio.
A publicação ocorreu mais de um ano e meio após o envio. O cardeal Fernández explicou que decidiu divulgá-la após declarações do papa Leão XIV no avião de retorno da África. O pontífice afirmou que “a Santa Sé já falou com os bispos alemães” para dizer “claramente que não concordamos com bênçãos formais de casais homossexuais […] fora do que foi autorizado pelo papa Francisco”. Sem citar diretamente Fiducia supplicans, Leão XIV destacou o desejo de seu predecessor de acolher “todos” na Igreja e comparou essas bênçãos às dadas “ao final da missa”, destinadas a “todos”.
O papa respondia a jornalistas sobre as bênçãos homossexuais que alguns bispos alemães — entre eles o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique-Freising — anunciaram querer implementar. Em reação à publicação da carta, a Conferência Episcopal Alemã divulgou um comunicado informando que um novo Vademecum, levando em conta as observações da Santa Sé, foi enviado a Roma e publicado em 23 de abril de 2025 — dois dias após a morte do papa Francisco — antes de ser adotado pelas instâncias eclesiais alemãs.
Na Alemanha, as dioceses de Tréveris, Osnabrück, Essen, Friburgo e Rotteburg-Stuttgart anunciaram a implementação de bênçãos semelhantes às da arquidiocese de Munique, garantindo respeitar o quadro definido por Fiducia supplicans. Já algumas dioceses, como a de Colônia, dirigida pelo cardeal Rainer-Maria Woelki, não devem seguir esse caminho.
O papa Leão XIV afirmou ainda que “a unidade ou as divisões na Igreja não deveriam girar em torno de questões de sexualidade”. Segundo ele, há uma tendência de reduzir a moral da Igreja a esse tema, quando, na verdade, existem questões maiores e mais importantes, como justiça, igualdade, liberdade de homens e mulheres e liberdade religiosa, que deveriam ter prioridade.
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Fonte: Aleteia
URL Original: https://pt.aleteia.org/2026/05/06/controversia-entre-igreja-alema-e-bencao-de-casais-homossexuais/
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