O “Sermão da Sexagésima” é uma das obras literárias mais importantes da língua portuguesa. O sermão pregado pelo padre Antônio Vieira em 1655, na Capela Real, em Lisboa, Portugal, é frequentemente tema de vestibular. Ele trata da própria arte de pregar a palavra de Deus com eficácia baseado no trecho do Evangelho que conta a parábola do semeador.
A enorme maioria dos católicos, porém, não celebra mais a Sexagésima, que é a cerimônia do próximo domingo (8). Apenas quem mantém o rito tradicional anterior à reforma do Concílio Vaticano II ainda celebra os três domingos, Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, que antecedem a Quaresma e são um período de preparação para o tempo quaresmal.
“Na Quarta-feira de Cinzas, entramos no tempo quaresmal, que é o tempo de penitência pública na Igreja. São quarenta dias que se caracterizam de modo mais profundo pela oração, pelo jejum e o exercício da caridade. Para não entrarmos neste tempo ex abrupto, saindo do tempo pós-Epifania e entrarmos direto na Quaresma, a Tradição da Igreja colocou uma espécie de antessala quaresmal, mostrando-nos os motivos da penitência, o que deve nos guiar neste caminho e os frutos que obteremos”, disse à ACI Digital o padre José Edilson Lima, da Administração Apostólica São João Maria Vianney, circunscrição eclesiástica de caráter pessoal no território da diocese de Campos (RJ) que mantém a liturgia antiga, a disciplina e os costumes tradicionais em plena comunhão com a Santa Sé.
O sacerdote disse que os fiéis começam a Septuagésima “com a consciência de nossa condição de pecadores, degredados filhos de Adão e passando a nos conhecermos a nós mesmos”.
Segundo ele, a Igreja quer que “saibamos quão profunda foi a queda original para assim também considerarmos justamente a malícia de nossas faltas pessoais, e deste modo compreendermos, pelo menos em algum grau, a imensa misericórdia do Senhor para conosco”. Desta maneira, disse, “estaremos preparados para as expiações salutares que nos aguardam na Quaresma e para as alegrias indizíveis que virão através delas”.
Neste ano, o domingo passado (1º) foi o da Septuagésima, o próximo (8) será o de Sexagésima e o seguinte (15), o da Quinquagésima.
Segundo o padre José Edilson, “embora sejam sessenta e três dias para a Páscoa, a Igreja apresenta o número de sete exatamente por significar como número base dos mistérios”.
“A duração do próprio mundo, segundo a antiga tradição cristã, é dividida em sete eras. A raça humana deve passar pelas sete eras antes do amanhecer do dia da vida eterna, desde Adão até a vinda do Juiz dos vivos e mortos. Na verdade, a Liturgia expressa a própria história humana”, disse.
O sacerdote destacou que “o tempo da Septuagésima nos lembra a queda de Adão no Paraíso e, com ele, toda a humanidade”. Por isso, “conscientes de nossas misérias, vamos nos preparando nestas três semanas para o grande tempo quaresmal, pois ‘a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação’”, disse, citando o número 8 da constituição dogmática Lumen gentium, do Concílio Vaticano II, sobre a Igreja.
Nesses domingos, disse o padre, “a Igreja já nos chama à reflexão sobre a nossa vida e o que pode lhe dar verdadeiro sentido”.
No domingo da Septuagésima, “o Evangelho vai nos chamar atenção para o chamado que Deus faz a cada um de nós: Vinde trabalhar na minha vinha. Eu vos darei o que for justo (Mt 20,4)”, disse o padre José Edilson. “O denário que o senhor da vinha dá ao operário é a bem-aventurança eterna”.
No domingo da Sexagésima, “somos interpelados a ouvir a Palavra de Deus, semente colocada em nós por Jesus Cristo e sua Igreja”. “Devemos, pois, nos preparar como ‘terra boa’ para as grandes pregações quaresmais que sacudirão a poeira da tibieza em nossos corações e nos arrancarão do estado de torpor”.
No domingo da Quinquagésima, disse o padre José Edilson, “ouvimos Jesus falar de sua Paixão e Morte pelos nossos pecados”. “A Igreja também nos mostra a figura do cego de Jericó, que somos todos nós, embotados pelo pecado e pelo vício. Mas nos mostra a esperança na misericórdia de Jesus, que nos faz ver a verdade que liberta e nos dá uma nova vida”, acrescentou.
Segundo o sacerdote, “assim a Igreja vai nos preparando pedagogicamente para a grande penitência quaresmal”.
Já na liturgia, há alguns elementos que caracterizam esse tempo de preparação para a Quaresma. “Cala-se o cântico do Gloria in excelsis Deo e o Aleluia, que somente retornam na Páscoa, embora possam estar presentes nas missas dos santos durante a semana”, disse o padre José Edilson. Segundo ele, “no lugar do Aleluia, que nos prepara com alegria para o Evangelho, a liturgia entoa o Trato, que expressa sentimentos de arrependimento, de súplica angustiada, de humilde confiança, sentimentos que devemos assimilar nestes dias”. Além disso, os paramentos litúrgicos são na cor roxa, “chamando todos à penitência que nos eleva às coisas do alto”.
Com a reforma litúrgica pós-Concílio Vaticano II, houve mudanças no calendário litúrgico da Igreja, com a supressão de algumas celebrações. Entre elas, a dos domingos da Septuagésima, da Sexagésima e da Quinquagésima.
O padre José Edilson contou à ACI Digital que “os principais motivos colocados” para a eliminação desses domingos de preparação para a Quaresma do calendário litúrgico “foram a simplificação do calendário, pois a reforma buscou reduzir tempos considerados complexos ou pouco compreendidos, e a valorização dos chamados tempos fortes: Tempo comum e Quaresma e, por fim, a ênfase numa catequese mais direta”.
Mas, esses domingos ainda são celebrados na Administração Apostólica São João Maria Vianney. “Isto ocorre seguindo ao Missal utilizado (Edição de 1962) seja nas paróquias da Administração Apostólica, seja nas igrejas atendidas por nós nas diversas dioceses do Brasil”, disse o padre José Edilson, que celebra em algumas igrejas na arquidiocese do Rio de Janeiro (RJ).
Apesar de não estar mais presente no calendário litúrgico pós-conciliar, o padre José Edilson considera que os fiéis podem aproveitar os domingos da Septuagésima, da Sexagésima e da Quinquagésima para se preparar para a Quaresma.
“Primeiro atendendo ao chamado de Cristo para buscar a conformidade com Ele no caminho de santidade (Septuagésima). Segundo, abrindo-se à Palavra de Deus e sua graça, buscando ser terra boa, que dê frutos de santidade (Sexagésima). Por fim, unir-se a Cristo em sua Paixão por um sincero espírito de sacrifício que leve à verdadeira caridade (Quinquagésima)”, disse.
“Além disso”, concluiu, “o tema da vigilância perpassa todo o tempo da Septuagésima”.
Natalia Zimbrão é formada em Jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É jornalista da ACI Digital desde 2015. Tem experiência anterior em revista, rádio e jornalismo on-line.
A celebração da missa tradicional em latim, conhecida como missa tridentina, foi declarada Patrimônio Cultural e Imaterial de Niterói (RJ) pelo prefeito Rodrigo Neves (PDT-RJ), na sexta-feira (5). Com essa lei, “o Poder Executivo, por meio dos órgãos competentes” pode “adotar as medidas necessárias à preservação, à valorização e ao incentivo à celebração da missa tridentina”.
O cardeal Raymond Burke celebrou uma missa tradicional em latim para uma multidão de peregrinos na basílica de São Pedro, no Vaticano, no último sábado (25). É a primeira vez desde 2022, quando o papa Francisco restringiu severamente o uso da liturgia anterior à reforma do Concílio Vaticano II, que a missa tridentina é celebrada na basílica.
Leão XIV pede para dom Rifan seguir como bispo da prelazia que mantém liturgia tradicional em Campos
O bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, dom Fernando Arêas Rifan, disse em nota no dia 19 de novembro, que o papa Leão XIV pediu para ele “ficar mais um tempo como Administrador Apostólico da Administração Apostólica”, porque “assim, haveria mais tempo para refletir e preparar" o seu sucessor.
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Fonte: ACI Digital
URL Original: https://www.acidigital.com/noticia/66695/domingos-da-septuagesima-sexagesima-e-quinquagesima-preparam-para-a-quaresma
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