O som de um isopor abrindo na manhã fria chega antes do cheiro de peixe. Nuuk ainda dorme sob uma neblina azul, e as lâmpadas das casas piscam como vaga-lumes distantes. Caminho pelas ruas estreitas de pedras até o mercado, onde cada banca revela uma história de marés, correntes e noites longas de inverno. A vendedora, com mãos habituadas a medir o sal das coisas, anuncia que hoje chegou uma remessa de verduras trazidas de navio apenas há dois dias. Não há muita variedade: alface, cenoura, algumas couves que resistem ao frio.
A terra, aqui, é uma parceira de poucas promessas; é difícil tirar da terra a abundância que muitos brasileiros consideram óbvia.
A vida cotidiana dos inuit é marcada pela ausência de abundância abundante, não pela ausência de dignidade. Quando o vento corta o rosto, a gente aprende a ler o tempo não só pelo céu, mas pela água que compõe a manhã: as marés que prometem caça e pesca, as correntes que sugerem o melhor caminho para o barco.
A terra, em si, é estreita e silenciosa. A fertilidade é uma palavra que ganha outra dimensão: não se planta grande variedade de frutas ou de verduras, mas se transforma o que há em alimento e em calor humano. O peixe congelado, dividido em porções, vira árvore de alimento para o longo inverno. A carne de caça, cuidadosamente seca ao vento ártico, é lembrança de uma estação que se estende por meses.
É comum ver crianças correndo entre blocos de gelo que outrora foram água; seus “jocs” — pequenas brincadeiras em groenlandês que rimam com as histórias dos adultos — nasceram da curiosidade de entender o que existe além do rádio e do rádio internet. O que parece escasso para quem chega de grandes centros é, na verdade, uma escola de faróis: cada casa conserva o suficiente para atravessar o próximo dia, e cada vizinho sabe onde buscar o que falta, sem muito alarde. O senso de comunidade é o que garante que, mesmo com recursos limitados, ninguém precise caminhar sozinho para resolver um problema.
As temperaturas nunca mentem. Quando o termômetro despenca, a vida se reconfigura em pequenas rotinas que fazem sentido apenas aqui. Evitar o desperdício é uma virtude prática: pensar duas vezes antes de abrir a última lata de peixe, planejar o que será cozido no dia seguinte, manter o freezer organizado para não perder nada. Não há espaço para o luxo da fartura, mas há espaço para o cuidado: o cuidado com as pessoas, com os mais velhos, com as crianças que aprendem que cozinhar é, antes de tudo, partilhar.
A metade do pão que chega de navio é, para muitos, um luxo acessível apenas de vez em quando
O pão é substituto da fruta quando a árvore não dá fruto, e as crianças, acostumadas a comer o que a terra oferece, aprendem a saborear os temperos simples com a paciência de quem sabe que cada refeição é uma construção de sobrevivência. O que é estranho ao leitor brasileiro pode ser visto aqui como uma forma de poesia prática: a fruta não cresce bem sob a sombra do gelo; por isso, as pessoas criam modos de preservar o que há, transformando músculos de peixe e raízes em uma alimentação que aguenta o inverno de semanas sem sol.
Longe dos olhos da cidade grande, as escolas também são cenários de coragem discreta. Professores e alunos buscam formas de ensinar que vão além do quadro-negro: histórias de migração, conhecimento sobre marés, e a língua inuit que carrega o silêncio da tundra em cada sílaba. Aprender é, aqui, também aprender a cuidar: cuidar do rio que alimenta o poço, cuidar do gelo que protege a casa da ventania, cuidar do outro que, amanhã, pode precisar de ajuda para atravessar a rua ou para levar alguém ao consultório.
A fé chega sem ruído, mas com peso. Em João 21, 15-17, Jesus pergunta a Pedro: Amas-me? E Pedro responde com o gesto de cuidado: eu te amo, tu me conheces; apascenta os meus cordeiros. É uma pergunta que ressoa no cotidiano da Groenlândia: quem cuida?
---
Fonte: Aleteia
URL Original: https://pt.aleteia.org/2026/01/26/groenlandia-o-que-a-populacao-inuit-nos-ensina-na-vida-cotidiana/
Comentários