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Lola: A mulher que se alimentava exclusivamente da Eucaristia

"Quando eu era criança, acompanhava a bênção com o Santíssimo Sacramento na minha pequena cidade em Minas Gerais e achava uma maravilha quando o padre cantava: “Do céu nos destes o pão”....

"Quando eu era criança, acompanhava a bênção com o Santíssimo Sacramento na minha pequena cidade em Minas Gerais e achava uma maravilha quando o padre cantava: “Do céu nos destes o pão”. E os fiéis respondiam: “que contém todo sabor”. Logo eu pensava no pão doce com creme da padaria, aquele era o mais saboroso para mim. E me lembrava sempre da Lola, uma mulher que fazia milagres e se alimentava somente da Eucaristia. Para minha visão infantil era lógico que ela não precisava se alimentar, pois, recebia na Eucaristia o pão que contém todo sabor. " Essa história, da mulher santa e da eucaristia, aconteceu em Minas Gerais, na Zona da Mata mineira, entre o cheiro de café e o verde úmido das montanhas, até o Rio Pomba. Em uma casa que guarda o silêncio das coisas sagradas, viveu Floripes Dornellas de Jesus, a Lola. Uma mulher que, para a medicina, é um ponto de interrogação e, para o povo, é uma prova viva de que nem só de pão vive o homem.  Lola não nasceu santa. Nasceu gente da roça, em 1913, com a pele curtida pelo sol e o destino traçado pelo trabalho no campo. Com pouco mais de 20 anos, porém, o destino pregou uma peça. Ou deu um nó. Ao cair de uma jabuticabeira, um acidente banal de juventude, Lola sentiu o corpo travar. O que parecia uma contusão passageira tornou-se uma paralisia definitiva. A menina que corria pelos pastos viu-se confinada a uma cama. Mas não foi a imobilidade que espantou o mundo; foi o que veio depois. Lola parou de comer.  Todo mundo de lá conta que a partir daquele acidente o corpo de Lola passou a rejeitar qualquer sustento sólido ou líquido. Médicos foram chamados, exames foram feitos, e o diagnóstico era sempre o mesmo vazio: não havia explicação. Por mais de 60 anos, o único alimento que cruzou seus lábios foi a hóstia consagrada, recebida diariamente em uma comunhão que era, literalmente, sua sobrevivência.  Entrar no quarto de Lola era como entrar em outra dimensão. Não havia o cheiro de mofo ou de doença que costuma acompanhar os acamados de longa data. Quem esteve lá jura que o ambiente exalava um perfume de flores frescas, mesmo quando as janelas estavam cerradas contra o vento. Ela ficava ali, miúda sob os lençóis brancos, com um terço entre os dedos e um sorriso que parecia não pertencer a este mundo de pressas e angústias. Lola não reclamava da dor que a ciência dizia ser inevitável para alguém naquela condição. Ela ouvia.  Com o passar dos anos, o quarto de Lola tornou-se o centro de uma peregrinação silenciosa. Vinha gente de todo canto: o fazendeiro rico com o filho doente, o operário desempregado, o político em busca de benção e o curioso em busca de truque. Lola recebia a todos. Não fazia milagres de palco, não pregava aos gritos. Sua força estava na escuta. Com uma voz mansa, ela distribuía conselhos que pareciam vir de quem conhece os segredos da alma por pura observação do alto de sua renúncia.  Sua irmã, que cuidou dela com uma dedicação litúrgica, conta que a rotina era de oração e acolhimento. A pequena notável de Rio Pomba tornou-se um fenômeno de inédia — o termo técnico para quem vive sem comer. Mas para Lola, o nome era outro: era graça. Ela dizia que a Eucaristia a saciava de tal forma que o estômago não sentia o vácuo. Está aí a prova de que o pão continha todo o sabor. O mistério de sua sobrevivência tornou-se um patrimônio imaterial da região, uma lenda que se respirava em cada esquina de Minas Gerais.  Hoje, anos após sua morte em 1999, o nome de Floripes Dornellas de Jesus voltou às manchetes e aos laboratórios. O Vaticano, com sua cautela milenar, abriu o processo de beatificação, elevando-a ao título de Serva de Deus. Pesquisadores e postuladores mergulham em prontuários antigos e colhem depoimentos para tentar separar o que é devoção popular do que é fato comprovado. A ciência busca a prova do jejum impossível; a Igreja busca a prova das virtudes heroicas.  Mas, para o povo de Rio Pomba, a análise da lupa visa constatar o que eles experimentaram. Para eles, o milagre não foi o tempo que Lola passou sem comer, mas o tempo que ela passou em oração. Em um mundo onde todos querem ter e consumir, Lola foi a prova de que é possível ser e oferecer, mesmo sem sair do lugar. O quarto de Lola permanece como um memorial. E quem fecha os olhos e respira fundo, ainda sente aquele perfume de jabuticabeira e incenso, lembrando que, às vezes, o céu decide morar em uma cama de madeira no interior de Minas. Todo o sabor do mundo cabia em uma hóstia e o mistério da presença de Jesus preenchia a vida toda de Lola. Um testemunho eloquente para nosso tempo.  --- Fonte: Aleteia URL Original: https://pt.aleteia.org/2026/02/27/lola-a-mulher-que-se-alimentava-exclusivamente-da-eucaristia/

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