Migrantes mortos neste mar são vítimas de decisões tomadas ou de omissões, diz Leão XIV em Lampedusa
Papa Leão XIV com uma família de migrantes na Porta da Europa, em Lampedusa, durante sua visita à ilha italiana hoje (4). | Vatican Media.
O papa Leão XIV celebrou uma missa hoje (4), na ilha de Lampedusa, e disse que os migrantes que morreram ao atravessar o mar Mediterrâneo "são vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram".
Mencionando a parábola do Bom Samaritano, proclamada no Evangelho de Lucas 10, 25-37, o papa destacou em sua homilia no campo desportivo Arena, que os habitantes de Lampedusa têm visto "milhares de seres humanos que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram tudo, os espancaram cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos".
“Os outros – aqueles que não conseguiram chegar onde desejavam – acolheu-os o mar. Sentimos, no entanto, a sua presença, que nos interpela não menos que a daqueles que desembarcaram, necessitados de atenção e socorro”, disse.
Ao chegar ao campo esportivo, Leão XIV foi acolhido por uma multidão que o recebeu com cânticos, braços erguidos e bonés nas cores amarela e branca.
Antes da missa, o presidente da Câmara de Lampedusa presenteou o papa com uma maquete do farol da ilha. Leão XIV falou da proximidade do papa Francisco com o povo de Lampedusa e disse que não veio para “fazer discursos, mas para celebrar a Eucaristia, sinal supremo da presença de Cristo entre nós”.
A homilia do papa Leão foi centrada no tema do amor: um amor que se concretiza na compaixão, na hospitalidade e na vontade de se aproximar dos necessitados.
"O Evangelho ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se acolhem mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas dialogam entre si. Em contrapartida, não ecoa onde cada um faz de si próprio uma ilha, onde o contato é evitado e o intercâmbio é interrompido", ressaltou.
Ainda com base na parábola do Bom Samaritano, o papa disse que o encontro com aqueles que foram despojados de tudo convida os cristãos "à proximidade". “Trata-se do ponto central da parábola evangélica: próximos nos fazemos, próximos nos tornamos”, frisou.
O papa Leão XIV também agradeceu ao povo de Lampedusa pelo “milagre da compaixão” que muitos decidiram "exercer" com os migrantes na ilha: "Agradeço aos voluntários, às associações agrupadas no “Fórum Solidário de Lampedusa”, às instituições civis, à Guarda Costeira, aos presidentes de Câmara e às administrações que se sucederam ao longo do tempo; agradeço aos diáconos, padres, religiosas, médicos, psicólogos, educadores; agradeço às forças de segurança e a todos aqueles que, com ou sem o dom da fé, optaram por amar em conjunto".
E acrescentou: “Saúdo os migrantes que aqui se encontram: eles próprios não receberam só solidariedade, mas muitas vezes a exerceram durante a sua viagem, como pobres a ajudar os mais pobres”.
O papa também alertou para a indiferença, a corrupção, o medo, os preconceitos e as políticas que não respondem à proporção desta crise.
"O desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos lugares de origem, um sistema económico mundial que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta preconceitos e desprezo, a ideia de que tais problemas não nos dizem respeito, os cálculos criminosos de quem lucra com o drama alheio, a lenta e difícil passagem de uma mera gestão de emergências à elaboração de políticas orgânicas e partilhadas: tudo isto reproduz hoje a pressa de “passar adiante”, da narrativa evangélica", disse.
O papa Leão XIV também ressaltou que a pertença religiosa nunca deve ser usada para excluir ou discriminar.
"É tempo de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação. Onde havia muros de separação, Cristo derrubou-os. Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar", enfatizou.
Ao falar em Lampedusa, ilha situada entre a Sicília e o norte da África e transformada em símbolo da crise migratória no Mediterrâneo, o papa centrou a sua atenção na Europa.
"A partir desta extremidade da Europa no Mar Mediterrâneo, percebe-se melhor o apelo histórico que o fenómeno migratório dirige às sociedades europeias. Também neste aspeto – tal como nos da transição ecológica e da promoção da paz", disse Leão XIV.
"A Europa", continuou ele, "possui um potencial único, decorrente da sua história e da sua cultura, e, por conseguinte, possui uma responsabilidade única. Neste âmbito, devido à sua localização geográfica e à sua estrutura institucional, a Europa é capaz de enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros num plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento, para que ninguém seja obrigado a emigrar".
O papa ainda disse que essa tarefa não cabe apenas às "instituições públicas, mas também" a toda "sociedade civil" e a "Igreja".
Dirigindo-se diretamente aos habitantes de Lampedusa, Leão XIV salientou ainda que o turismo na ilha pode correr o risco de “erguer um muro invisível” entre os turistas e os migrantes que sobreviveram aos naufrágios.
“Tende, pois, a ousadia de pensar de forma diferente”, disse ele. "Pouco a pouco e com criatividade, conseguireis fazer com que quem transcorre um período, mesmo de descanso, nesta ilha, se possa tornar mais humano ao confrontar-se com a vossa caridade, com o que o mar vos ensinou, com os encontros que vos educaram".
"Efetivamente, existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida; e existe bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna. Nesta economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se numa síntese, que hoje a humanidade procura".
Ao final de sua homilia, o papa Leão fez referência à imagem de Nossa Senhora de Porto Salvo, padroeira de Lampedusa, que estava próxima ao altar.
"Todos nós temos em Deus um porto seguro, e cada comunidade cristã é chamada a ser um reflexo disso mesmo na terra. A vós, comunidades de Lampedusa e Linosa, nunca vos falte o alento da fé, da esperança e da caridade: «O’scià!» (Saudação típica dos habitantes de Lampedusa)".
Antes da missa, o papa visitou o cemitério de Lampedusa, onde depositou flores nos túmulos dos migrantes, permanecendo mais tempo junto aos túmulos das crianças. O momento foi marcado pelo silêncio e por um vento forte.
Em seguida, foi até o monumento Porta da Europa, onde teve um breve encontro com uma família de imigrantes. Um menino presenteou Leão XIV com uma bola de futebol e leu uma carta escrita à mão que fez ao papa.
“Querido Papa, estou super emocionado por conhecê-lo! Há dez anos, minha história começou aqui em Lampedusa. Eu estava sozinho e tinha perdido tudo, principalmente a minha mãe. Dizem que só parei de chorar quando me deram uma bola feita de papel; desde aquele dia, a bola ficou no meu coração e eu nunca mais parei de jogar”, escreveu o menino.
Ao entregar a bola ao papa, o menino disse: “Agora espero que esta bola que te dou possa chegar a outra criança e fazê-la feliz, assim como a mim”.
O papa dirigiu-se então para o mar para rezar a sós. O vento levou-lhe o solidéu branco, que caiu na água enquanto ele rezava perto da margem.
Leão XIV abençoou uma pedra do Cais Favaloro com uma placa dedicada ao papa Francisco. Vatican Media
Antes de ir para o campo desportivo Arena, o papa Leão visitou o Cais Favaloro, onde abençoou uma placa em homenagem ao papa Francisco. Lá, cumprimentou os migrantes acompanhados por uma cruz vermelha, além das religiosas que sempre são as primeiras a dar as boas-vindas aos migrantes que chegam à ilha.
A visita ocorreu um dia depois de o Papa Leão XIV, nascido nos Estados Unidos, aceitar a Medalha da Liberdade concedida pelo Centro Constitucional Nacional de Filadélfia, lembrando como a sua terra natal tinha aberto as portas a ondas de imigrantes, permitindo que estes e os seus filhos ajudassem a construir o futuro da nação.
O papa criticou as políticas de imigração do governo Trump, e a coincidência da sua visita a Lampedusa com o 250º aniversário dos Estados Unidos foi amplamente comentada no país norte-americano.
Artigo publicado originalmente em duas partes na ACI Stampa e reunido pela EWTN News.
Leão XIV passa dia dos 250 anos da Independência dos EUA com migrantes africanos em Lampedusa
A cerca de 130 quilômetros da Tunísia, país do norte da África, Lampedusa é uma das principais portas de entrada para africanos que fogem da pobreza e da violência rumo ao continente europeu.
Como o grupo tradicionalista ordenou bispos sem a aprovação papal, a Santa Sé decretou hoje (2) que os bispos ordenados e os que os ordenaram estão excomungados.
O papa Leão XIV pede aos fiéis que rezem especialmente pelo “respeito e pela proteção da vida humana” em todo este mês de julho.
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Fonte: ACI Digital
URL Original: https://www.acidigital.com/noticia/68785/migrantes-mortos-neste-mar-sao-vitimas-de-decisoes-tomadas-ou-de-omissoes-diz-leao-xiv-em-lampedusa
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