Santa Sé oferece diálogo com a FSSPX e adverte que consagrações ilícitas encerrariam as conversas
Cardeal Víctor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e padre Davide Pagliarani, superior-geral da Fraternidade São Pio X (FSSPX). | Crédito: Dicastério para a Doutrina da Fé.
O Dicastério para a Doutrina da Fé disse ontem (12) que está disposto a começar um diálogo teológico estruturado com a Fraternidade São Pio X (FSSPX), mas advertiu que qualquer plano do grupo tradicionalista de consagrar bispos sem a aprovação papal constituiria uma ruptura da comunhão e interromperia imediatamente as negociações.
Em comunicado divulgado depois da reunião de ontem entre o cardeal Victor Manuel Fernandez, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e o padre Davide Pagliarani, superior-geral da FSSPX, o dicastério disse que ambas as partes concordaram com um processo “especificamente teológico”, com uma metodologia definida, para abordar questões que, segundo o comunicado, ainda não receberam esclarecimentos suficientes.
O dicastério também alertou que, se a FSSPX prosseguir com as consagrações episcopais anunciadas para 1º de julho sem a autorização da Santa Sé, tal medida “implicaria uma ruptura decisiva na comunhão eclesial (cisma)”, com “graves consequências” para a fraternidade em seu conjunto, e poria fim ao diálogo de forma imediata.
O comunicado não mencionou explicitamente a excomunhão, que o direito canônico prescreve para todos os bispos envolvidos em consagrações episcopais sem a aprovação pontifícia.
Segundo o dicastério, Pagliarani disse a autoridades da Santa Sé que apresentaria a proposta ao conselho da fraternidade e, posteriormente, comunicaria uma resposta. Caso a resposta seja positiva, diz o comunicado, ambas as partes estabelecerão conjuntamente os passos, etapas e procedimentos a serem seguidos.
A FSSPX em um comunicado divulgado mais tarde no mesmo dia, descreveu a conversa de uma hora e meia como "tanto cordial quanto franca."
O padre Pagliarani disse ao cardeal que a FSSPX tinha um "dever, na necessidade espiritual em que as almas se encontram, de garantir a continuidade do ministério de seus bispos", segundo o comunicado.
Segundo o dicastério, o diálogo teológico abordaria questões controversas relacionadas à interpretação do ensinamento posterior ao Concílio Vaticano II, incluindo a vontade de Deus quanto à pluralidade de religiões; a distinção entre um ato de fé e a "submissão religiosa da inteligência e da vontade"; e os diferentes níveis de assentimento exigidos por vários textos do Concílio Vaticano II e sua interpretação.
A questão fundamental é se a FSSPX deve aceitar o Vaticano II como doutrinariamente vinculante ou se pode tratá-lo primordialmente como pastoral e, portanto, aberto a críticas.
O dicastério acrescentou que as conversas buscariam identificar as “condições mínimas” necessárias para a plena comunhão com a Igreja Católica e, consequentemente, delinear um status canônico para a FSSPX, juntamente com outras questões que precisarão ser estudadas mais a fundo.
A reunião aconteceu depois do anúncio de Pagliarani, em 2 de fevereiro, de que a FSSPX pretende consagrar novos bispos em 1º de julho, alegando que a medida é necessária para preservar a continuidade.
As consagrações seriam feitas pelo bispo Bernard Fellay, antecessor de Pagliarani como superior-geral, com o bispo Alfonso de Galarreta como co-consagrante. Pagliarani disse que a troca de cartas com a Santa Sé não produziu a resposta que a fraternidade esperava.
A advertência da Santa Sé remete à ruptura de 1988, quando o arcebispo Marcel Lefebvre consagrou quatro bispos sem a aprovação pontifícia, depois do fracasso das negociações com Roma, o que desencadeou uma declaração formal de excomunhão e uma longa ruptura da plena comunhão.
Em 1988, uma solução parecia estar ao alcance depois que um acordo concedeu à fraternidade um lugar reconhecido na Igreja e a permissão para celebrar exclusivamente a missa tradicional em latim, em troca da aceitação do Concílio Vaticano II e do reconhecimento da validade dos ritos reformados. Lefebvre acabou prosseguindo com as consagrações.
Em 2009, Bento XVI revogou as excomunhões dos bispos consagrados em 1988. Sob o pontificado do papa Francisco, a Santa Sé estendeu certas faculdades pastorais aos sacerdotes da FSSPX, ao mesmo tempo que restringiu o uso mais amplo da Missa Tridentina por meio do motu proprio Traditionis custodes.
Andrea Gagliarducci é jornalista e analista do Vaticano para a ACI Stampa, agência em italiano do grupo ACI.
Conversa com FSSPX continua mesmo com ordenações episcopais anunciadas, diz Santa Sé
A Santa Sé respondeu ao anúncio feito na segunda-feira (2) pela Fraternidade São Pio X de que planeja consagrar bispos — até o momento sem a aprovação de Roma — dizendo que o diálogo continua e visa evitar rupturas ou decisões unilaterais.
O cardeal Anders Arborelius fez um apelo direto à unidade na diocese de Estocolmo, Suécia, esclarecendo o status canônico da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) e alertando os fiéis contra escolhas que possam minar a comunhão eclesial.
Um grupo de freiras carmelitas em Arlington, Texas, EUA, anunciou este mês que passaria a se associar à Fraternidade São Pio X (FSSPX), grupo tradicionalista que não está em plena comunhão com a Igreja e tem um status canonicamente irregular.
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Fonte: ACI Digital
URL Original: https://www.acidigital.com/noticia/66751/santa-se-oferece-dialogo-com-a-fsspx-e-adverte-que-consagracoes-ilicitas-encerrariam-as-conversas
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