Há dores que ninguém vê. Há pessoas que continuam trabalhando, sorrindo, conversando, cuidando dos filhos, respondendo mensagens e cumprindo suas obrigações enquanto, por dentro, sentem que já não sabem como continuar.
Nem toda dor faz barulho. Algumas chegam em silêncio. E, quando a dor se prolonga, pode surgir uma pergunta assustadora:
Falar sobre saúde mental é, antes de tudo, falar sobre pessoas. Pessoas que, em determinados momentos da vida, podem se sentir cansadas demais, sozinhas demais ou feridas demais para enxergar uma saída.
E talvez uma das coisas mais dolorosas seja justamente esta: quando a pessoa não consegue mais imaginar um futuro diferente do sofrimento que está vivendo hoje.
Na psicologia, sabemos que momentos de sofrimento intenso podem alterar a maneira como enxergamos a realidade. A mente pode se tornar mais rígida, o futuro parece fechado e aquilo que antes tinha significado pode perder o brilho.
A pessoa não necessariamente quer deixar de existir. Muitas vezes, ela quer apenas deixar de sofrer. Essa diferença é fundamental.
Por isso, diante de alguém que está sofrendo, precisamos trocar o julgamento pela presença. Em vez de perguntar “por que você está assim?”, talvez seja mais importante dizer:
Escutar pode ser uma forma de cuidado. Perguntar pode ser uma forma de amor. E levar alguém a buscar ajuda pode ser uma forma concreta de esperança.
Porque, quando tudo parece desmoronar, é possível que até a oração se torne difícil. Há momentos em que não conseguimos encontrar palavras para Deus. Momentos em que rezar parece não produzir consolo. Momentos em que a pessoa olha para o céu e pergunta, entre lágrimas:
Os Salmos estão cheios de clamor, medo, angústia e silêncio. Jó questiona. Jeremias lamenta. Cristo, no Getsêmani, experimenta a agonia. Na cruz, Jesus pronuncia palavras que atravessam os séculos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
A fé cristã não nos promete uma vida sem sofrimento. Ela nos revela algo ainda mais profundo: Deus não permanece distante da nossa dor. Ele entra nela.
Cristo não é um Deus que observa o sofrimento humano de longe. Ele conhece a solidão, o abandono, as lágrimas, a angústia e a dor.
Por isso, quando alguém atravessa uma noite escura da alma, talvez não precise ouvir que “tudo acontece por uma razão” ou que “basta ter fé”.
Talvez precise primeiro sentir que pode chorar, que pode dizer que está cansado. que pode admitir que não está bem, que pode pedir ajuda.
E que, mesmo quando não consegue perceber a presença de Deus, isso não significa que Deus tenha deixado de estar presente.
Existe uma ideia equivocada de que ter esperança significa acreditar que tudo dará certo. Nem sempre.
Às vezes, esperança é simplesmente acreditar que é possível chegar até amanhã. É levantar da cama. É tomar um banho. É contar para alguém que não está bem. É marcar uma consulta. É aceitar ajuda. É permanecer, mesmo sem compreender ainda por que permanecer.
Na fé, a esperança não é uma ingenuidade diante da realidade. Ela nasce justamente quando reconhecemos que, sozinhos, não somos capazes de controlar tudo.
E talvez seja isso que precisamos recordar quando a dor nos convence de que nada mais pode mudar: o sofrimento de hoje não é capaz de contar toda a história da nossa vida.
Assim como procurar um médico quando o corpo adoece não significa falta de confiança em Deus, cuidar da saúde mental também não significa abandonar a vida espiritual.
Deus pode agir por meio de muitas formas de cuidado: através de uma oração, de uma comunidade, de um sacerdote, de um amigo, da família e através de um profissional preparado para acolher e acompanhar o sofrimento psíquico.
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender sua história, reconhecer suas feridas, identificar padrões de pensamento e comportamento, reconstruir vínculos, desenvolver recursos emocionais e, pouco a pouco, reencontrar possibilidades onde antes parecia existir apenas um vazio.
Às vezes, a pessoa não precisa encontrar imediatamente um grande sentido para a vida.
Precisa apenas encontrar um pequeno motivo para permanecer hoje. Depois, outro amanhã.E mais um depois.
Até que, pouco a pouco, aquilo que parecia impossível comece novamente a ganhar forma.
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Fonte: Aleteia
URL Original: https://pt.aleteia.org/2026/09/08/setembro-amarelo-quando-falta-a-esperanca-deus-ainda-permanece/
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