Nas Filipinas, como em muitas outras partes do mundo, a taxa de suicídio é impressionantemente alta. A carta pastoral dos bispos considera o que deve ser feito para melhorar a saúde mental
“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos”: é com estas comoventes palavras do Evangelho de Mateus que os bispos filipinos abrem a sua recente carta pastoral sobre a crise de saúde mental que afeta milhões de filipinos. As palavras de Cristo lembram-nos de que cremos em um Deus que carrega as nossas cruzes conosco. Ele é um redentor que suporta as nossas feridas e abraça a nossa dor. Nesse mistério de amor que se esvazia, encontramos um salvador que opta por entrar no nosso sofrimento, em vez de observar a nossa miséria à distância.
A necessidade dessa mensagem não poderia ser mais urgente. De acordo com um estudo recente, um em cada nove filipinos sofre de alguma condição de saúde mental, enquanto um a dois em cada dez estudantes do ensino médio filipinos já consideraram tirar a própria vida. Os tiroteios em uma escola de Tacloban no mês passado indicam a gravidade desse problema atualmente.
A crise também atingiu o clero. Desde 2023, dois padres da Arquidiocese de Cebu cometeram suicídio, o que levou o arcebispo Dom Jose “Abet” Uy a criar a iniciativa Priest Companion (Padre Companheiro), que identifica padres de confiança entre os seus irmãos sacerdotes a quem eles possam recorrer facilmente em momentos de aflição pessoal, emocional ou psicológica.
Essas histórias lembram-nos de que a doença mental não discrimina. Ela afeta jovens e idosos, fiéis leigos e clérigos. Portanto, é oportuno e profundamente pastoral que os nossos bispos tenham decidido estender a mão a todos os que sofrem com essa crise. Eles falam como pastores que esperam trazer para casa suas ovelhas feridas, sem julgamento ou condescendência, mas com palavras de solidariedade, compaixão e esperança.
A carta começa reconhecendo o amplo alcance da doença mental. Fala de como esse fardo silencioso pesa sobre quase todas as comunidades — de estudantes a idosos, de jovens famílias a trabalhadores no exterior:
“Os problemas de saúde mental estão se tornando cada vez mais comuns em nosso país, especialmente entre os jovens. Por trás das estatísticas estão pessoas reais: um estudante sobrecarregado pela pressão, bullying e preconceito; um pai ou mãe esmagado por dívidas; um trabalhador no exterior separado da família; uma vítima de abuso; um idoso que vive na solidão; alguém preso ao vício ou uma família de luto pelo suicídio de um ente querido.
Não podemos falar sobre saúde mental sem falar também sobre as realidades que pesam gravosamente sobre o nosso povo. A pobreza, o desemprego, a injustiça, a desestruturação familiar, os desastres naturais, a migração e até o flagelo crescente dos jogos de azar on-line e outros vícios podem aprofundar o sofrimento emocional e psicológico. Esses não são apenas fardos pessoais, mas também preocupações sociais que nos clamam por uma solidariedade maior.”
Essas palavras revelam uma atenção paterna. Em vez de falar em abstrações, a carta desenha um retrato dos muitos rostos do sofrimento mental que os filipinos vivenciam hoje. Elas nos mostram que os nossos bispos conseguem ver que, por trás de cada estatística, há uma pessoa com dignidade e com a sua própria história.
Mais adiante na carta, os bispos dirigem-se às famílias que perderam um ente querido por suicídio. É talvez o trecho mais comovente do documento. Em um raro gesto de humildade, reconhecem que algumas famílias enlutadas podem ter se sentido incompreendidas ou não acolhidas no seio da Igreja e, por isso, pedem o seu perdão:
“Desejamos falar especialmente às famílias que choram a morte de um ente querido por suicídio.
A Igreja confia os seus entes queridos à infinita misericórdia de Deus. 'Graves distúrbios psíquicos... podem diminuir a responsabilidade de quem comete o suicídio. Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que tiraram a própria vida' (CIC 2282–2283). 'Na sua mão está a alma de tudo o que vive e o sopro de vida de todo o gênero humano' (Jó 12, 10). Por favor, não percam a esperança.
Se vocês vivenciaram incompreensão ou se sentiram não acolhidos na Igreja durante o seu tempo de luto, pedimos o seu perdão.”
Isso não é um formalismo vazio. Por gerações, equívocos em torno do suicídio deixaram muitos carregando tanto o luto quanto a vergonha. Ao confiar aqueles que foram levados a tirar a própria vida à generosa misericórdia de Deus e ao pedir perdão àqueles que se sentiram abandonados, os bispos ecoam a compaixão de Cristo, que sempre se aproximou dos de coração quebrantado, especialmente daqueles incompreendidos ou rejeitados pela sociedade.
Por mais bela e corajosa que seja essa carta, ela é também um despertador para todos os católicos filipinos, especialmente aqueles que não lutam pessoalmente contra doenças mentais. Nossos bispos ecoam fielmente a compaixão ilimitada de Cristo. Contudo, essas palavras só encontrarão a sua plena expressão quando forem encarnadas pelas pessoas com quem vivemos, trabalhamos e rezamos todos os dias, razão pela qual a carta pastoral faz questão de incluir recomendações para paróquias e comunidades:
“Como comunidades de fé, lembremo-nos em nossas orações daqueles que sofrem de doenças mentais, daqueles que cuidam deles e das famílias que carregam esses fardos com amor e silenciosa coragem. Incentivamos cada paróquia a estabelecer grupos de aconselhamento, oferecer o Sacramento da Reconciliação regularmente, incluir orações regulares pela saúde mental, cura e esperança na celebração da Eucaristia e em outras devoções comunitárias, para que ninguém que sofra se sinta esquecido, e todos possam encontrar forças no abraço compassivo de Cristo e de Sua Igreja.”
As seções finais da carta lembram-nos de que acompanhar aqueles que lutam contra doenças psicológicas não é responsabilidade apenas do clero. Pertence a toda a Igreja. Por meio do nosso batismo, cada católico é chamado a tornar tangível a presença curadora de Cristo na vida dos outros.
Embora esta carta fale diretamente àqueles que vivenciam doenças mentais e às famílias que cuidam deles, o seu convite destina-se a cada fiel. É um chamado para nos tornarmos o parente, amigo, colega ou paroquiano compassivo por meio de quem Cristo pode continuar a curar hoje. Sua mensagem desafia a todos nós a perguntar como podemos aproximar o toque curador de Cristo daqueles que se sentem mais distantes do seu abraço.
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Fonte: Aleteia
URL Original: https://pt.aleteia.org/2026/08/20/bispos-das-filipinas-desafiam-leigos-com-carta-sobre-saude-mental/
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