Em seu canal no YouTube, o jornalista Rodrigo Alvarez leva os internautas a uma jornada em uma pequena localidade na Zona da Mata mineira, onde o verde das colinas serpenteia entre o Rio Pomba e as antigas fazendas de café. Estamos em Rio Pomba, Minas Gerais, um cenário que parece ter parado no tempo, mas que guarda um dos mistérios mais profundos da história religiosa e científica do Brasil: a vida de Floripes Dornellas de Jesus, carinhosamente conhecida como Lola. Ela nasceu em 1913 e sua vida de sofrimento e oração ficou famosa por toda a região.
Na sua juventude, Lola subiu em uma jabuticabeira no quintal de sua casa. O que deveria ser apenas uma brincadeira terminou em uma queda trágica: ela escorregou e caiu sentada. A partir daquele dia, o corpo da jovem Floripes nunca mais seria o mesmo. Ela passou a viver em uma posição quase única, recostada em cinco ou seis travesseiros, de onde não sairia por décadas.
Essa imobilidade física, que para muitos seria um fardo, tornou-se para Lola o início de uma relação profunda e misteriosa com o sagrado. Como o Aleijadinho, o "Michelangelo brasileiro" que também enfrentou limitações físicas severas em Minas Gerais, Lola transformou seu sofrimento em uma obra de fé.
Rodrigo Alvarez mostra com detalhes o quarto de Lola, um espaço que permaneceu fechado por 27 anos após sua morte. Nele, o jornalista apresenta dados que desafiam os manuais de medicina. A ciência nos diz que o corpo humano não sobrevive mais do que poucos dias sem água e semanas sem alimento. No entanto, os relatos e o acompanhamento médico indicam que Lola viveu 64 anos sem comer, sem beber e sem dormir.
"Não é que eu não coma. Eu não sinto fome. Não é que eu não durma. Eu não sinto sono", dizia ela com naturalidade. Seu único sustento, durante mais de meio século, era a hóstia consagrada que recebia diariamente. Do ponto de vista estritamente biológico, a hóstia — composta apenas de farinha de trigo e água — não possui as proteínas ou nutrientes necessários para sustentar a vida humana por tanto tempo. É um fenômeno que hoje atrai o interesse de pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que buscam entender como a fisiologia de Lola operava fora dos padrões conhecidos.
O cotidiano de Lola era marcado pela discrição. Após uma reportagem desrespeitosa da revista Manchete em 1957, que a descreveu de forma sensacionalista, ela restringiu as visitas de jornalistas e curiosos. Aqueles que conseguiam acesso ao seu quarto, como o Dr. Cláudio Bontempo, com quem Alvarez conversou, e foi seu médico nos últimos quatro anos de vida, descreviam uma atmosfera de "luz, paz e tranquilidade".
Lola tinha permissão para manter o Santíssimo Sacramento dentro de seu próprio quarto, uma honra raríssima na Igreja Católica, comparável apenas a figuras como Madre Teresa de Calcutá. Ali, cercada por imagens do Sagrado Coração de Jesus, ela distribuía conselhos, orações e pequenos livretos de fé para os peregrinos.
A jornada de Lola encerrou-se de forma tão serena quanto sua vida. eram os primeiros dias de abril de 1999, por volta das 5 horas da tarde, ela anunciou: "Jesus já está aqui comigo". Morreu sorridente, deixando um rastro de devoção que agora alimenta o seu processo de beatificação e canonização.
Hoje, o Sítio de Lola em Rio Pomba tornou-se um local de peregrinação e estudo. Seja através do olhar crítico da ciência que busca explicações nos laboratórios das universidades, ou através do olhar da fé que vê nela uma mensageira divina, a história de Floripes Dornellas de Jesus permanece como um convite à reflexão sobre os limites da matéria e a força do espírito. Em Minas Gerais, onde as montanhas guardam segredos seculares, Lola de Jesus continua a ser a sentinela de um mistério que ainda aguarda ser plenamente desvendado.
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Fonte: Aleteia
URL Original: https://pt.aleteia.org/2026/07/17/jornalista-visita-o-quarto-onde-viveu-lola-a-serva-de-deus-que-ainda-impressiona-peregrinos/
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