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Comissão da Santa Sé busca solucionar lacuna legal enfrentada por freiras vítimas de abuso

Comissão da Santa Sé busca solucionar lacuna legal enfrentada por freiras vítimas de abuso O órgão da Santa Sé contra o abuso está estudando maneiras de proteger melhor as freiras que sofreram...

Comissão da Santa Sé busca solucionar lacuna legal enfrentada por freiras vítimas de abuso O órgão da Santa Sé contra o abuso está estudando maneiras de proteger melhor as freiras que sofreram abusos. | Crédito: Canva. As mulheres consagradas que sofreram abusos enfrentam uma lacuna legal significativa: o Direito Canônico e as comissões especializadas se concentram principalmente em menores e adultos com deficiência, deixando-as fora de seu âmbito de proteção. Na prática, isso significa que, se a vítima for adulta e com formação, presume-se que ela pode se defender ou que houve consentimento. No entanto, alguns sinais de mudança estão começando a surgir no Vaticano. “Não pode ser apenas um rótulo de adulto vulnerável”, diz Claudia Giampietro, canonista italiana que trabalha na Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores (PCPM). “Não são só essas situações, mas temos que entender que há situações de assimetrias, de poder, circunstâncias, situações onde há abuso, e são essas situações de vulnerabilidade que precisamos aprofundar”, disse em entrevista à EWTN Notícias na quarta-feira, 1º de julho. Uma das funções desta comissão da Santa Sé é colaborar com os diversos dicastérios da Cúria Romana, as conferências e uniões de religiosos e religiosas e os institutos de vida consagrada. Essa proximidade lhes permite conhecer em primeira mão uma realidade complexa: “Há muitas circunstâncias, situações e pessoas que podem (afetar também) as religiosas, mais velhas, não só as jovens. Por isso, é necessário compreender os contextos em que trabalham, onde desenvolvem seu ministério, tanto dentro das comunidades quanto fora delas”. A Santa Sé contribuiu para quebrar o tabu sobre os abusos contra as religiosas ao dedicar, em janeiro de 2020, uma ampla reportagem na revista Donne, Chiesa, Mondo, suplemento mensal feminino do L’Osservatore Romano, sobre temas como abuso de poder, abuso sexual e as dificuldades enfrentadas por muitas freiras dentro e fora da vida consagrada. Nos anos seguintes, multiplicaram-se os estudos destinados a dimensionar esse fenômeno tradicionalmente oculto. Entre eles, está a pesquisa publicada em 2022 no livro Vulnerabilidade, abuso e cuidado na vida religiosa feminina, editado pela irmã María Rosaura González Casas, então coordenadora da comissão para o cuidado e proteção de menores e pessoas vulneráveis ​​da Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosas (CLAR). Baseado em uma pesquisa com 1.417 freiras de 23 países ibero-americanos, o estudo revelou que 19,8% relataram ter sofrido abusos sexuais e que mais da metade afirmou ter experimentado algum tipo de abuso de poder por parte de superioras, padres, formadores ou bispos. Além disso, 14,3% das entrevistadas disseram ter sido assediadas por um padre, 9,7% por leigos e 8% por outras religiosas. Os dados que evidenciam a amplitude e a complexidade de um problema que, durante décadas, permaneceu amplamente silenciado. A irmã María Rosaura González Casas, decana do programa de psicologia do Instituto de Antropologia (IADC) da Pontifícia Universidade Gregoriana, disse que, desde a publicação do estudo há quatro anos na região, “houve uma maior conscientização em todos os níveis sobre o que constitui abuso”. “As irmãs são mais conscientes, e os bispos e padres também estão mais despertos. Quando fizemos a pesquisa, muitas freiras não quiseram responder, mesmo sendo anônima. Percebia-se um medo para dizer as coisas. Agora há uma maior consciência, embora ainda faltem códigos de conduta claros. Na sociedade, continua existindo um machismo inconsciente e assimilado que permeou a vida religiosa e sacerdotal”, disse a irmã à EWTN Notícias. Não se trata de uma conferência acadêmica, mas de um laboratório de trabalho ou, como é chamado em inglês, um learning lab sinodal, voltado para resultados concretos. Durante os três dias, bispos, institutos de vida consagrada e sociedades de vida apostólica, conferências e uniões de superiores maiores, representantes dos dicastérios da Cúria Romana e especialistas em prevenção de abusos trabalharão juntos em mesas-redondas, sessões sobre direito canônico e grupos de trabalho. “A Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores já assumiu essa questão e, com seu envolvimento, as superioras e as religiosas a levarão mais a sério”, disse a irmã Jacinta Ondeng, da congregação School Sisters of Notre Dame, do Quênia, convidada a participar do encontro. “A salvaguarda deve ser uma parte essencial da vida comunitária”, disse a religiosa, diretora da Safeguarding Initiative for Catholic Sisters, projeto sediado na Universidade Tangaza, em Nairóbi, que oferece formação em prevenção de abusos em diversos países africanos. A irmã Ondeng insiste na necessidade de um acompanhamento eficaz dos casos. “É importante que os órgãos competentes do Vaticano acompanhem estas situações, porque muitas vezes os casos provenientes de África, e talvez de outras partes do mundo, são acobertados precisamente por falta de supervisão. Se os órgãos competentes da Santa Sé intervierem e avaliarem os casos quando as congregações não os resolverem, isso ajudará”. Conferência Episcopal Francesa apresenta logo oficial da visita do papa ao país Ela também propõe a elaboração de diretrizes claras para lidar com casos de abuso na vida consagrada, semelhantes às estabelecidas pelo papa Francisco na encíclica Vos estis lux mundi para denúncias de abuso a menores, que exigem que bispos e superiores ajam quando houver denúncias ou indícios preocupantes “Quando ficar claro que o Vaticano está envolvido em questões que afetam membros da vida consagrada, haverá mudanças. A natureza humana responde a regras claras: quando elas existem, as pessoas tendem a agir com maior prudência”, disse. A freira também liderou um estudo revelador, ainda não publicado, na África, que trouxe à luz testemunhos angustiantes de mulheres consagradas, como estes: “As irmãs deixam a vida religiosa não por falta de vocação, mas por causa dos abusos; as superioras estão abusando de sua autoridade”. “As irmãs sofrem em silêncio em vez de se manifestarem porque amam a Igreja e temem prejudicar a reputação de um padre, bispo ou superior”. “Contei à minha superiora o que estava acontecendo e, como a irmã envolvida era amiga dela, ela não fez nada”. Esses depoimentos, incluídos na pesquisa conduzida pela freira, refletem uma realidade eclesial por vezes marcada por abuso psicológico, maus-tratos, pressão e chantagem emocional contra mulheres consagradas na África. O estudo, cujos resultados foram apresentados na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, durante a Conferência Internacional de Salvaguarda (ISC) de 2026, realizada de 16 a 19 de junho sob o tema “Um compromisso, muitos contextos: a salvaguarda através das culturas”, baseia-se em uma pesquisa online anônima realizada entre fevereiro e março de 2026, na qual participaram mais de 140 freiras de diferentes países africanos. As conclusões do estudo são reveladoras: 35,5% das congregações não possuem uma política formal de salvaguarda; 67,4% das religiosas entrevistadas identificam o medo do estigma e a autoculpabilização como os principais obstáculos para denunciar abusos; e 60,3% apontam a ausência de canais confidenciais para denúncias. Fatores pessoais como “a vergonha, a culpa e as recriminações contra si mesmas estão muito presentes entre muitas religiosas que desejam dar o passo de denunciar”, diz a irmã Ondeng, que dedica seu ministério a oferecer oficinas e treinamentos sobre proteção na África, com foco especial em religiosas católicas. O objetivo da irmã é conscientizar sobre o abuso e suas consequências, empoderar as mulheres consagradas para que rompam a cultura do silêncio e promover ambientes seguros para todos. Ela também fala da importância da transparência e da prestação de contas como pilares fundamentais para o sucesso das políticas de proteção dentro da Igreja. A freira também alerta para a tendência ao acobertamento que pode ocorrer em alguns contextos eclesiais. “Como inúmeros estudos sobre abuso e abuso de autoridade têm demonstrado, a hierarquia da Igreja goza de enorme respeito em muitas sociedades africanas”, diz ela. Trata-se de um valor cultural positivo, mas também ajuda a explicar por que pessoas em posições de autoridade raramente são denunciadas quando se envolvem em comportamentos abusivos. “Muitas irmãs não querem lavar roupa suja em público. Elas não querem expor esses problemas publicamente para proteger a reputação da instituição”. “Algumas temem que, se falarem, serão expulsas da vida religiosa e não querem sair”, acrescenta Ondeng. O estudo da irmã Ondeng também revela que, diante de situações de injustiça ou abuso, algumas freiras optam por deixar a vida consagrada. Os abusos podem assumir muitas formas — sexual, espiritual, física, emocional ou institucional — e, em certos casos, tornam-se insuportáveis. No entanto, a maioria das vítimas permanece em suas comunidades, muitas vezes por medo do estigma social ou da rejeição que poderiam enfrentar se voltassem para suas famílias. Outras têm consciência de que deixar o convento pode acarretar sérias dificuldades econômicas, por não terem emprego nem meios próprios de subsistência, diz a religiosa. Das 141 freiras entrevistadas, mais de 95% relataram ter recebido algum tipo de formação em prevenção de abusos sexuais. Contudo, em muitos casos, essa formação é insuficiente. “A maioria participou de cursos rápidos, mas não podemos afirmar que 95% receberam formação integral em proteção. Algumas participaram, no máximo, de sessões de um ou dois dias. Isso é muito pouco, e isso é um problema”, disse a freira queniana à EWTN. Por isso, ela insiste na necessidade de fortalecer a formação em proteção como um verdadeiro ministério dentro da Igreja. “É preciso muito mais preparação para que as freiras católicas tenham a coragem de falar sobre suas experiências em suas comunidades. Atualmente, a formação é muito limitada e precisa ser intensificada para empoderar as mulheres consagradas”, diz A este desafio, soma-se um componente cultural importante. “As pessoas não querem tornar seus problemas públicos. É algo muito enraizado na cultura africana, embora também ocorra em contextos europeus e americanos”, conclui. O Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica não publica números gerais sobre as visitas apostólicas realizadas em todo o mundo, uma vez que estas são conduzidas de forma ocasional e não sistemática. A única investigação em larga escala da qual existem dados detalhados foi a realizada nos EUA entre 2008 e 2014, que envolveu 341 institutos de vida consagrada e aproximadamente 50 mil religiosas. “Toda a Igreja deve compreender que a proteção é um valor evangélico. Não é algo imposto de fora. O Evangelho nos chama a promover a dignidade de cada pessoa, a amparar os que sofrem e a cuidar dos feridos”, conclui a irmã Ondeng. Victoria Cardiel é jornalista especializada em temas de informação social e religiosa. Desde 2013, ela cobre o Vaticano para vários veículos, como a agência de noticias espanhola Europa Press, e o semanário Alfa y Omega, da arquidiocese de Madri (Espanha). Javier Romero é correspondente do Vaticano para a EWTN Noticias e cobre o Vaticano há mais de uma década. Arcebispo de Rabat se afasta temporariamente do ministério público por investigação de abusos O arcebispo de Rabat, Marrocos, o cardeal espanhol Cristóbal López Romero, anunciou ontem (7) que se afastará temporariamente de todas as atividades públicas e pastorais enquanto a Igreja faz uma investigação preliminar devido a acusações de suposto comportamento inadequado com mulheres adultas. Em meio a escândalo de abusos no Reino Unido, Leão XIV nomeia administrador apostólico para Northampton Em meio a um escândalo de abuso sexual que afetou a diocese de Northampton, Reino Unido, o papa Leão XIV nomeou hoje (30) um administrador apostólico para supervisionar a diocese até que um novo bispo seja nomeado. Padre de Salvador é nomeado para seção do Dicastério para a Doutrina da Fé que investiga abusos O cônego Alberto Montealegre Vieira Neves, do clero da arquidiocese de Salvador (BA), foi nomeado oficial do Dicastério para a Doutrina da Fé. Ele vai atuar na seção disciplinar, que trata dos “delitos reservados”, que são os mais graves no âmbito da Igreja. --- Fonte: ACI Digital URL Original: https://www.acidigital.com/noticia/68859/comissao-da-santa-se-busca-solucionar-lacuna-legal-enfrentada-por-freiras-vitimas-de-abuso

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