Irracionalidade e crueldade são características trágicas da ditadura, diz bispo da Nicarágua
Obrigado a deixar a Nicarágua em abril de 2019 por defender os manifestantes que protestavam contra o regime do presidente Daniel Ortega e de sua mulher e vice-presidente, Rosario Murillo, cuja repressão deixou mais de 350 mortos, segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, o bispo-auxiliar de Manágua, dom Silvio Báez, alertou, em entrevista concedida no exílio, sobre a irracionalidade e a crueldade que, em sua opinião, marcam o regime nicaraguense.
“Uma das características mais trágicas desta ditadura é a sua irracionalidade. Junto com a irracionalidade, vem a crueldade. Mas a irracionalidade deste sistema é escandalosa”, disse o bispo Báez em entrevista ao jornal nicaraguense Confidencial, concedida em Madri, Espanha, onde esteve há alguns dias para participar de uma conferência em Ávila.
“Faço um chamado a Daniel Ortega e a sua esposa para que cessem a violência e a repressão. Não ponham em risco a paz do país. Escutem, dialoguem e tenham a maturidade para corrigir tantos erros. Pelo bem da Nicarágua, sejam sensatos!”, dizia a mensagem publicada na rede social X.
O bispo comentou que esta mensagem “adquiriu ainda mais atualidade. Eu a repetiria na cara deles, a mesma coisa que lhes disse há oito anos. Sejam sensatos!”.
“Foi muito sangue derramado, muitas vidas sacrificadas, muita dor. E tudo isso tem um preço infinito. Espero que nada disso tenha sido em vão e confio que o Senhor acolha em suas mãos bondosas todo esse sangue, toda essa dor, toda essa luta. Que tudo isso seja como um adubo para uma nova etapa da história da Nicarágua”, disse o bispo.
Desde então, o governo nicaraguense intensificou a perseguição à Igreja Católica no país, controlando padres, expulsando freiras, confiscando dinheiro e propriedades da Igreja, proibindo ordenações e exilando bispos, como o próprio bispo Báez, que agora reside em Miami, Flórida, EUA.
Lá, ele celebra missa todos os domingos na Paróquia de Santa Agatha, onde o pároco e o padre assistente, os padres Marcos Antonio Somarriba e Edwing Román, também são exilados nicaraguenses.
Báez disse que “na Nicarágua há uma ditadura que mata, persegue, exila, confisca, mente e manipula, assemelhando-se aos regimes autoritários e totalitários descritos na Bíblia. Na Sagrada Escritura, a realidade da opressão, da escravidão e da injustiça está mais presente do que se imagina”, disse.
Segundo Báez, “a história do povo bíblico começa com um estado de opressão, onde há um faraó que decide quem vive e quem morre, que mantém o povo submetido à escravidão e se serve dele para seus propósitos de enriquecimento e de grandeza”.
Diante dessa realidade, Deus “ouve o clamor dos oprimidos, vê o sofrimento dos pobres e o sente. Ele é um Deus que não permanece indiferente. Ele entra na história. E a forma como Deus entrou na história no livro do Êxodo foi chamando Moisés”, que libertou o povo de Israel e o conduziu à terra prometida
“Hoje, o faraó continua existindo”, continuou, “e o que nós, cristãos, devemos viver e ter como profunda convicção é que o nosso Deus, o Deus da Bíblia, o Deus e Pai de Jesus Cristo, jamais está ao lado de um faraó.”
Depois de denunciar que obrigar pessoas, um povo ou os meios de comunicação a se calarem é um crime contra a dignidade humana, dom Báez falou sobre o silêncio na Igreja Católica.
“Na Igreja, existe um silêncio negativo de calar para não ter problemas, para não ter dificuldades com os grupos do poder, com o sistema estabelecido, com aqueles que detêm o poder. O mais fácil é calar. E a Igreja cai nessa tentação quando cala”, denunciou.
“Somos chamados, como comunidade de Jesus, a ser uma comunidade corajosa e transparente, uma comunidade da Palavra. Não somos uma comunidade de silêncio”, disse. Ele acrescentou que também existe um silêncio positivo, que aponta para a oração e a prudência, calando “toda palavra humana para ouvir o Senhor”.
“Nos meus últimos dias em Manágua, eu disse uma frase da qual muitos ainda se lembram: ‘Um povo crucificado sempre ressuscitará’, porque o ícone pascal da Cruz nos mostra novamente a mesma realidade do exílio. Para Deus, não há um momento final em que tudo acaba. Sempre pode brilhar uma nova luz em meio à escuridão”, disse.
Báez também falou de Rolando Álvarez, bispo de Matagalpa e administrador apostólico de Estelí, um dos quatro bispos nicaraguenses exilados
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Álvarez foi injustamente acusado de traição e condenado a 26 anos e 4 meses de prisão, em um julgamento repleto de irregularidades, antes de ser exilado em janeiro de 2024.
Báez disse que sofreu “muito com a tragédia que Rolando viveu na Nicarágua” e tem “a satisfação de que, além de acompanhá-lo em oração todos os dias”, também fez “tudo o que estava” ao seu “alcance”. “Levantei a minha voz em diferentes Estados dos EUA, em vários meios de comunicação”, para que “ele não sofresse na prisão e para que fosse libertado”.
Ao falar da decisão do papa Francisco de que ele deixasse a Nicarágua em 2019, o bispo admitiu que aceitá-la “foi muito doloroso”. “Eu discuti longamente com o papa Francisco, mas ele estava convencido de que era o melhor a fazer”.
“Ele me disse: ‘Não quero outro bispo mártir na América Central’. E me pegou pelo braço lá em Roma e disse: ‘Obedeça-me, eu sei do que estou falando’. Depois de uma longa discussão, ao final percebi que não tinha sentido estar discutindo com o Santo Padre, e notei o carinho e a bondade com que ele tentava me livrar de um atentado e de uma morte que eram muito prováveis”, disse.
Sobre seu ministério no exílio, Báez disse que “é um desafio à criatividade pastoral”. “A gente está onde está o coração, não onde estão os pés. E descobri nestes anos de exílio que não estar fisicamente presente não significa necessariamente estar distante”.
Um exemplo dessa atuação é que, na última segunda-feira de cada mês, mais de 200 padres nicaraguenses exilados se reúnem via Zoom. Segundo Báez, o encontro conta com a anuência do papa Leão XIV e também com a participação de outro bispo exilado, Carlos Enrique Herrera, presidente da Conferência Episcopal da Nicarágua.
“É o clero do exílio, mas essa é uma das dimensões em que exerço meu ministério episcopal: estar perto dos padres”, disse.
Em agosto de 2025, o papa Leão XIV se reuniu com os bispos exilados, entre eles dom Báez. Segundo ele, o papa “tem um conhecimento muito detalhado da situação da Nicarágua”. “Sabe o que está acontecendo, conhece a situação da Igreja, conhecia a nossa própria situação e acredito que tomará decisões”.
“O papa Leão é muito reflexivo, um homem de Deus e muito espiritual. Ele é um homem sábio, sabe ouvir e não se deixa guiar pela espontaneidade. Tenho certeza de que a Nicarágua, a Igreja na Nicarágua, os padres e os bispos estão em sua mente e em seu coração”, disse Báez.
O bispo reconheceu que, com o clima de perseguição na Nicarágua, às vezes sente medo, mas destacou que o importante é agir e não deixar que “o medo o paralise ou silencie”. “Às vezes, o medo também nos ajuda a enxergar as coisas com mais clareza. O importante é que isso não te controle”, acrescentou.
Báez destacou que a fonte da esperança é a fé em Deus: “Quando todos os caminhos se fecham, quando tudo parece escuro, a fé em Deus dá uma força interior para dizer: ‘não, nem tudo terminou’. É possível um novo começo, e mais luminoso. Que o desânimo, a tristeza e o medo não nos paralisem, não nos aprisionem, não nos façam baixar os braços nem calar a voz”.
Báez disse acreditar que a mudança na Nicarágua depende das pessoas que ainda estão lá e disse que sonha com um país onde “possamos compartilhar nossas ideias e nossos bens sem medo, de forma solidária e justa, onde possamos construir uma nação em que ninguém se sinta excluído, onde pensar diferente não seja crime, onde todos trabalhemos juntos”.
“Um país onde haja verdadeira paz fundada na justiça social. E eu acredito que isso é possível. Tenho certeza de que conseguiremos. A pátria está no coração. E eu amo a Nicarágua”, concluiu.
Walter Sánchez Silva é jornalista na ACI Prensa, agência em espanhol do grupo ACI, com mais de 15 anos de experiência cobrindo eventos da Igreja na Europa, América e Ásia.
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A polícia da Nicarágua prendeu novamente o bispo-emérito de Estelí Abelardo Mata, em 30 de junho, um dia depois de sua prisão inicial e depois de sua libertação na última segunda-feira, 29 de junho. O bispo de 80 anos está agora em prisão domiciliar.
O bispo-emérito de Estelí, Nicarágua, Abelardo Mata, que acaba de completar 80 anos, foi detido pela polícia do regime do país por várias horas na última segunda-feira (29), um dia depois de celebrar uma missa na qual pediu orações pela Igreja perseguida no país.
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Fonte: ACI Digital
URL Original: https://www.acidigital.com/noticia/68857/irracionalidade-e-crueldade-sao-caracteristicas-tragicas-da-ditadura-diz-bispo-da-nicaragua
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