a manhã de 13 de abril, os católicos europeus acordaram com a notícia chocante do ataque de Donald Trump ao Papa Leão XIV. Ele não se limitou a publicar um texto longo e irreverente; também divulgou uma imagem gerada por inteligência artificial que o retratava como Cristo, na pose de um curador providencial, repleto de bandeiras, águias, símbolos militares, luz celestial e referências nacionalistas. Diante da indignação que se seguiu, o presidente apagou a publicação controversa e ofereceu uma explicação confusa, alegando que pensava que a imagem o representava como médico a serviço da Cruz Vermelha.
Não devemos nos deixar enganar por esse recuo. Melhor ainda, e talvez mais importante, para entendermos o que está em jogo aqui, vale a pena comparar essa imagem pseudocristã com o ataque dirigido contra o Papa. Poderíamos até argumentar que a imagem e o texto formam um díptico notavelmente coerente. Por um lado, Donald Trump reduz o Papa à condição de adversário político, como se este só fosse legítimo se ratificasse a narrativa nacional trumpista; por outro, apresenta uma imagem que une intimamente a nação, Deus e ele próprio numa composição que, embora ultrajante, revela, contudo, uma certa concepção protestante americana da nação.
Para o público católico francês, é importante compreender esta imagem distinguindo dois níveis: a intenção de provocar politicamente, certamente, mas também os recursos visuais mobilizados. Esta imagem, produzida por algoritmos americanos com base em consultas formuladas dentro de um contexto cultural específico, é perfeitamente legível e emocionalmente eficaz para certos segmentos da sociedade americana. Embora possa parecer ultrajante a ponto de ser grotesca, e embora tenha chocado até mesmo alguns dentro do próprio movimento, permanece profundamente americana. Para entender por que tal imagem "funciona" nos Estados Unidos, é necessário lembrar que o protestantismo americano não é, historicamente, um deserto iconográfico. Produziu uma cultura visual de massa composta por imagens que moldaram de forma duradoura a percepção popular da religião.
Um marco importante nessa tendência é a obra Cabeça de Cristo (1940), de Warner Sallman, cuja ampla distribuição estabeleceu a imagem de um "Jesus sentimental": acessível, sereno, simpático, com traços europeizados. Essa obra, produzida por um pintor que era membro da Igreja Evangélica do Pacto, ajudou a estabelecer uma gramática visual estruturada em torno de três elementos: um realismo imediatamente legível, uma ternura emocional no rosto e uma luz envolvente como sinal explícito de graça.
A essa tradição soma-se outra fonte essencial: a estética mórmon. A cultura visual da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias difundiu-se amplamente nos Estados Unidos e continua a influenciar o imaginário contemporâneo por meio de bancos de imagens digitais. Artistas como Del Parson, Greg Olsen e Robert T. Barrett produziram um conjunto de imagens padronizadas e centradas em Cristo, destinadas ao ensino doutrinário. Sua uniformidade estilística é impressionante. As mesmas constantes são evidentes: clareza narrativa, realismo ilustrativo e presunção de historicidade. O Jesus americano assume facilmente a aparência de um retrato de estúdio, onde a frontalidade, a iluminação dourada e a intimidade emocional criam uma relação direta com o observador.
Os Cristos de Del Parsons oferecem, sem dúvida, a chave mais imediata para a compreensão da imagem de Trump. Eles apresentam a túnica branca combinada com o casaco vermelho, o retrato frontal, a serenidade emocional e a luz envolvente, à qual se acrescenta, aqui, o gesto da imposição de mãos, emprestado de narrativas populares dos Evangelhos. Inteligências artificiais, treinadas com base nesse conjunto de imagens, absorveram seus códigos: elas recompõem espontaneamente essa iconografia. E é justamente por essa imagem ser tão onipresente que nenhum americano se enganou a seu respeito.
A cena "Trump, o Curandeiro" inspira-se nos princípios do realismo devocional mórmon, hibridizando-os com outro registro, desta vez político. Surge um segundo modelo, externo à esfera estritamente religiosa: a pintura político-conservadora de Jon McNaughton. Suas imagens, concebidas para circulação digital, combinam sistematicamente símbolos religiosos e narrativas patrióticas. Em obras como Legado de Esperança (2020), Trump aparece no centro de um círculo de oração. Agora, com a imagem gerada por IA, Trump se tornou um curandeiro. Passamos da figura do líder sustentado pela oração para a do chefe que realiza milagres.
Essa estética, exclusiva do universo MAGA, não é simplesmente uma questão de gosto: constitui uma verdadeira gramática política, associando o herói à ameaça, o apocalipse à restauração. Concebida para uma compreensão imediata, emprega sobrecarga simbólica e a busca por um determinado impacto emocional. O fundo da imagem fornece a chave. Vemos uma bandeira gigantesca, caças, águias, fogos de artifício e silhuetas celestiais militarizadas. A mensagem é clara: os Estados Unidos são uma nação protegida, curada e restaurada, e o líder personifica essa mediação.
Aqui encontramos o que o renomado sociólogo Robert Neelly Bellah chamou de "religião civil americana": um sistema de crenças, símbolos e rituais, paralelo às igrejas, no qual a nação se vê como detentora de uma vocação transcendente. Essa religião também possui sua própria gramática visual: a sacralização da bandeira, a heroificação dos mortos, a liturgia comemorativa e a atribuição de transcendência aos emblemas nacionais.
Com Donald Trump, essa religião civil tende a se fundir com o nacionalismo cristão, uma forma conservadora de protestantismo que vincula a prosperidade nacional à eleição divina. A imagem de "Trump como Cristo" é uma expressão particularmente explícita disso. Embora o presidente tenha, em última instância, removido a publicação, essa imagem não deve ser dissociada do ataque ao Papa, que Donald Trump não repudiou. Essa imagem é seu equivalente icônico. Pois, embora a religião civil tenha se mostrado compatível com muitas formas protestantes, ela sempre manteve uma relação mais complexa com o catolicismo. O texto de Donald Trump reproduz essa estrutura de suspeita. Ele não discute doutrina; ele desqualifica o Papa porque este não pensa como a América de Trump deveria pensar. Para o presidente americano, a legitimidade de Leão XIV é subordinada a uma narrativa político-nacional. Quando afirma que Robert Prevost não teria sido eleito sem ele, Donald Trump rejeita a transcendência do papado, situando-o na luta entre poderes terrenos. O gesto é característico de um protestantismo político onde a autoridade romana é tolerada apenas sob a condição de que deixe de ser verdadeiramente romana.
A oposição entre Leon e seu irmão Louis, apresentados como "todos apoiadores de Trump", fornece a formulação mais clara disso: distingue o "bom católico", alinhado com a nação sacralizada, do "mau" católico, que evoca uma autoridade moral superior à razão de Estado. Aqui encontramos uma das questões antigas do anticatolicismo americano: Roma não é meramente uma anomalia doutrinária, mas um limite à soberania nacional. Essa preocupação foi forte o suficiente para levar John F. Kennedy, em 1960, a declarar que não era "o candidato católico", mas um candidato democrata que por acaso era católico.
A imagem de Donald Trump como um milagreiro nacional não era apenas grotesca; era compreensível. Ela deriva de uma visão de mundo onde salvação pessoal, bênção nacional, poder militar e destino providencial podem se fundir. Tal fusão coloca os católicos em uma posição estruturalmente desconfortável: patriotas, mas sempre sujeitos a serem julgados insuficientemente americanos assim que invocam a autoridade universal. O alvo de Donald Trump, portanto, não é a religião em geral, mas aquela parte do catolicismo que escapa à apropriação nacional. Seu anticatolicismo não é doutrinário; é um anticatolicismo de subordinação, onde a dependência de Roma é reformulada como uma acusação de ser "fraco" ou "político".
Nesse sentido, texto e imagem procedem do mesmo movimento: um degrada, o outro exalta. Entre os dois, pode-se discernir a operação de substituição da universalidade católica por uma sacralidade nacional, onde a salvação não vem mais pela Igreja, mas pela nação.
Este episódio não foi um mero excesso retórico nem uma provocação isolada, mas uma mudança mais profunda. Pois o que aconteceu com este texto e esta imagem transcende a figura de Donald Trump e até mesmo a controvérsia com o Papa. Testemunhamos uma tentativa mal disfarçada de substituir a universalidade do cristianismo por uma religião da nação, onde a salvação se confunde com o poder. E é preciso afirmar claramente: o cristianismo não pode ser nacionalizado sem perder sua essência. Assim que Cristo se torna o emblema de um povo, uma bandeira ou um poder, ele deixa de ser o sinal de salvação oferecido a todos e se torna a justificativa para a dominação.
Talvez seja isso que esta imagem revela com uma franqueza involuntária. Não a fé de um homem, mas a tentação de uma época: fazer de Deus não mais o juiz das nações, mas o garante de suas ambições. E não podemos ignorar que, cada vez que essa inversão ocorre, não é apenas a política que se desvia, mas a própria Igreja que fica comprometida.
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Fonte: Aleteia
URL Original: https://pt.aleteia.org/2026/04/16/o-que-revela-a-imagem-de-donald-trump-como-um-cristo-que-realiza-milagres/
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